quinta-feira, dezembro 30, 2010

Exposição em Roma desvenda mistérios das obras de Caravaggio

Bom dia Brasil - Edição do dia 30/12/2010

As técnicas usadas pelo pintor italiano continuam um mistério. Há muitas suposições, e a exposição levanta algumas hipóteses.

Em Roma, um mistério começa a ser revelado. Michelangelo Merisi da Caravaggio é nome de pintor italiano. Era mais do que isso: um gênio da arte que a ciência ainda não desvendou. Uma exposição lembra os 400 anos da morte de dos maiores artistas da história.



Os segredos de um pintor genial começam a ser desvendados. O Palácio Veneza, em Roma, propõe uma viagem ao processo criativo de um artista revolucionário do século 16. Michelangelo Merisi, que se tornou conhecido com o nome de uma cidade do Norte da Itália, Caravaggio, viveu apenas 39 anos, mas deixou uma vida muito rica de acontecimentos e obras de arte.

Quatrocentos anos depois da morte de Caravaggio, as técnicas usadas pelo pintor italiano continuam um mistério. Há muitas suposições, e a exposição levanta algumas hipóteses. A primeira delas e a mais simples é a de que Caravaggio, em um dos seus quadros, teria pintado seu próprio rosto através do espelho.

“O Baco doente”, provavelmente, seria um auto-retrato. O curador da mostra, o engenheiro Claudio Falcucci, diz que usou os poucos documentos da época e até um inventário do material de trabalho do artista.

Caravaggio pintava sem que ninguém visse. Só seus modelos, gente escolhida na rua, e não fazia desenhos na tela. Poderia ter empregado a técnica do quarto escuro, estudada desde o século 11, o princípio de física ótica que deu origem à fotografia.

No fim do século 16, Caravaggio mudou completamente o seu estilo de pintar. Começou a fazer fundos muitos escuros, que contrastavam com a luz intensa dos seus personagens. Em uma sala, que representa o quadro em que São Jerônimo está escrevendo, está uma tese que levou 20 anos para ser desenvolvida e é a mais apreciada.

O engenheiro analisou a obra de Caravaggio e sustenta que o pintor trabalhava em uma sala de paredes pretas, que usava a luz natural que vinha de uma abertura no telhado, refletida em um espelho côncavo, e a desviava para o rosto dos modelos sem iluminar o fundo do quadro. Segundo esta linha de pensamento, Caravaggio teria então uma faixa de luz para por a sua tela e pintar. Nesse caso, o modelo ficaria de costas para o pintor. O pintor teria usado outro espelho. Então, a imagem de São Jerônimo aparece de frente.

A vida conturbada de um dos maiores pintores de todos os tempos envolveu muitas brigas, fugas e até a morte de um homem provocada por ele. O pintor em 1610, com pouco mais de 70 quadros de autoria confirmada. Em Roma, frequentou palácios nobres e foi protegido por cardeais da Igreja. Pintou temas religiosos e rostos humildes comoventes. Com os escuros, claros e a força de um realismo dramático.

A convergência dos extremos – Crendice & Cepticismo - Por Adriano de Aquino

Adriano de Aquino - Reflexões sobre arte e cultura

Escritas na forma de diálogo entre personagens virtuais que transitam entre a dor de consciência, as maldades, exitos e contradições existenciais de um criador de arte frente as benesses no reino da economia suprema e do mercado gestor, estas reflexões sobre arte e cultura, de Adriano de Aquino, abrem questoes de forma inteligente e pouco convencional.


A convergência dos extremos – Crendice & Cepticismo


_Ah! Quer dizer que pra você a demanda do mercado por suas obras, ou melhor; sua inserção econômica no mundo das artes é um tormento? Ora! Não me venha com essa! Não creio que alguém possa ser tão indiferente ao reconhecimento financeiro.

_Engana-se, minha amiga. Não sou um alienado, indiferente as necessidades materiais e financeiras. O que eu disse é que não há nada de espontâneo ou propriamente verdadeiro no mundo dos negócios. Não creio que exista realização nessa troca para além, é claro, da recompensa material, evidentemente. Crer que o reconhecimento financeiro de um artista é parâmetro de aferição para além do negocio é um tremendo equívoco. Esse é um campo minado que há muito tempo suscita mais dúvidas que certezas. Todos nós somos de alguma forma, afetados pela intermediação do dinheiro para continuar vivos. Essa é uma constatação tão sólida quanto a certeza da morte. O ganho financeiro é um meio de se sustentar como individuo e uma ferramenta de fomento para a experiência corpórea e existencial em qualquer atividade humana. Além disso, o cerne da minha critica não incide sobre esse campo específico. As contradições entre o poder da grana e a liberdade criativa é um capítulo complicado da história humana. Não tenho nenhuma pretensão de estender esse assunto, tendo em vista sua complexa interação que se arrasta pelo longo percurso da humanidade. Se por um momento isso apareceu na nossa conversa foi de maneira fortuita. Foi apenas uma citação peremptória de certa impotência diante dos pactos que nos parecem inexoráveis.
Nas circunstancias atuais, em que a economia é o mais elevado item da vida social, fazer uma critica ao dinheiro sem aprofundar nos mecanismos da produção, difusão e consumo, por mais inteligente que seja, soa como falação inútil.

_Ok!Ta bem!Então retorna para sua argumentação anterior.

_ O que me parece relevante no jogo entre finanças e arte é a ridícula simulação de decoro que se apoderou da mentalidade corrente em nossos dias. A complexidade da produção da atualidade não foi compartilhada por avanços nos mecanismos de intermediação compatíveis com os novos tempos.
O que assistimos aqui e acolá são arremedos grotescos da velha hierarquia mercantil e uma crescente estupidez, convertida em paternalismo estatal. Tal descompasso pode ser percebido, inclusive, nas atitudes de muitos artistas. O ambiente artístico está impregnado de simulacros e afetações típicas da remota aristocracia. É espantoso que na contemporaneidade os rituais arcaicos ainda sejam tão influentes. Por força das circunstâncias houve apenas algumas modificações. As mais visíveis são a substituição dos critérios e das analises mais apuradas das obras de arte por operações promocionais e mercantis, mais objetivas e pragmáticas.Algo similar aos procedimentos e estratégias do marketing politico e dos produtos da indústria cultural. Repare nas fórmulas hoje disponíveis de difusão da arte. Elas dizem muito sobre o sistema. A visibilidade, um dos fundamentos da publicidade, tornou-se o preceito básico que faz girar o mundo da arte. Os métodos promocionais são mais eficazes quanto mais a mensagem se repita. Essa regra é capital para vender mais uma marca de sabão em pó do que a do concorrente na prateleira ao lado. Ainda que uma mente ardilosa imagine ser uma grosseria usar a mesma técnica para alavancar as vendas de um produto cultural, dado que um consumidor de cultura possui, supostamente, mecanismos de defesa mais refinados que o consumidor em geral, o fato é que essa técnica prevalece para tudo. Ocorre, entretanto, que um objeto cultural não é apenas uma caixa de sabão em pó. Não obstante, em circunstancias especiais, uma caixa de sabão em pó pode vir a ser uma obra de arte. Para que tal fenômeno se realize é necessário, antes de tudo, que o objeto se pareça com arte, quer dizer, possua um dom particular, um espírito, digamos assim. A linha de produção industrial empilha no chão das fábricas colunas e mais colunas de objetos que não portam atributos descriminados num glossário das artes. Eles são,em suma,objetos para finalidades especificas.
Mas,esses mesmos objetos, recondicionados pelo circuito da arte, ganham outros sentidos. Assim, um bife pendurado na geladeira de um açougue é, em tudo e por tudo, diferente de um bife metafórico, artístico, exposto numa instituição de arte. Quando Duchamp realizou seu gesto germinal o mundo se surpreendeu. Hoje, ninguém mais se espanta. Não ha um grande evento de arte em que esse tipo de produção não esteja incluída. Além disso,várias instituições de ensino de arte espalhadas pelo mundo e inúmeras cartilhas dedicam capítulos sobre essa "escola" ou tendência da arte. Se por um lado isso parece positivo para que mais pessoas se expressem "artisticamente", por outro, constitui um complicador que,entre outras coisas, propicia ações difusas no que tange a autonomia criativa.São tantas e tão afinadas entre si que não cabe aqui,nesse momento,discuti-las. Porém,posso adiantar, que o novo perfil das instituições e do mercado se ajustaram muito bem ao modelo. Afinal, o bacana da banalidade é a possibilidade de imersão total no banal por todos os segmentos do sistema. Alguns teóricos consideram esse efeito o paradigma de uma revolução estética permanente.

_Ah,ah,ah! De fato, o êxtase com o banal é uma unanimidade global.

_Até aí tudo bem.Contanto que esse paradigma não obstrua o mercado nem paralise a cadeia produtiva,quer dizer;os artistas e os demais segmentos do mercado. Para reforçar seu status frente aos novos desafios os agentes culturais se puseram a pensar,pensar,pensar até chegarem a um método colaborativo bastante eficaz. Isolaram alguns produtos estéticos da montanha de similares e investiram na visibilidade midiatica. A midia é uma vitrine cara, todavia,muito eficiente para imprimir no público a sensação de que existe uma escala de valores nas artes dos nossos dias. Nesse contexto, a visibilidade midiatica funciona como a agulha de uma bússola que orienta um navegante pouco entrosado nas muitas rotas da cultura contemporânea.Num mundo, sacudido por constantes e velozes transformações, onde a instabilidade é uma sensação constante, o individuo mal tem tempo de selecionar, dentre os milhares de informações vazadas todos os dias, aquelas que lhe serão mais úteis. Então, como demandar dessa pessoa uma leitura crítica e equilibrada sobre as diferentes propostas estéticas do último grande evento de arte global? Leve-se em conta que os jornais e revistas contribuem para embaralhar ainda mais o assunto. Anunciam como polêmicos fatos corriqueiros e expedientes promocionais de um artista, focando o leitor nas labaredas da fogueira das vaidades e nas ambições cretinas, típicas das revistas de promoção de egos, hoje tão em voga. Como se isso não bastasse, os periódicos enchem páginas de entrevistas com curadores que se arrogam a emitir diagnósticos sobre a contemporaneidade.
É esse conjunto de fatores-não a produção artística em si - que mais excita o circuito. Como reverter esse bochicho em promoção e tornar o negócio mais atraente e lucrativo? Eis a questão do sistema da arte atual.
Marcar os espaços e pacificar o ambiente tornou-se uma meta dos negociantes mais argutos. A solução mais evidente foi eleger dois ou três nomes da safra de artistas e divulgá-los sistematicamente. Entretanto, com essa tática, o jogo se revelou de um simplismo assustador, pois, os demais artistas tornam-se apenas coadjuvantes. Servem para calçar o sistema frente os imprevistos de percurso.
Bem, essa tem sido a forma de atuação dos players do sistema de arte atual. Até certo ponto vem surtindo um efeito pacificador. O ambiente cultural mostra sinais de contentamento e a vanguarda contemporânea tem vibrado de alegria.
O modelo é permissivo,introjeta imediatamente a contestação a redirecionando para o circuito. Nenhuma experiência anterior de vanguarda foi tão generosamente acolhida pelo sistema como a que agora presenciamos. Abrigados sob a égide de uma poética do cotidiano alguns artistas parecem contentes com os resultados alcançados.
Cabe, portanto, aos agenciadores de marketing, curadores e marchands dar seqüência ao processo realçando o valor à partir da diferença. Numa vitrine em que tudo é muito igual fica difícil defini-la de imediato. Alías, esse é um recurso atraente que encontra similaridades com os atributos celestiais que separam os eleitos daqueles que estão sujeitos aos sacrifícios mercantis ou promocionais dos simples mortais. Como quase ninguém tem saco para esse assunto, poucos se dão conta dos interesses em jogo nessas operações. Para muitos a palavra talento resume o fenômeno, é o suficiente para convencer alguém de que um tal personagem é um prodígio, um mago. Todavia,para o negócio isso não é o bastante. Para reforçar o aparato e agilizar a vinda de lucros mais rápidos, um conjunto de experts tem que entrar na roda.Para tocar essa ponta do negócio existem os curadores.
Oriundos das universidades,academias e centros de arte mundo afora e revestidos da autoridade de um general, peito coberto de comendas, esses experts surgem de toda parte para dirimir dúvidas e consolidar o óbvio:Credenciar nomes. Ontem um curador dos Alpes suíços, hoje uma curadora de uma bienal germânica, amanhã, outro personagem da alta cultura de um país desenvolvido em visita ao país, qual reis magos, anunciam numa entrevista que, para eles, existe, dentre o enorme contingente de artistas locais ávidos por espaço, apenas quatro expoentes da arte contemporânea brasileira.
Coincidentemente, os nomes citados são sempre os mesmos e o roteiro o velho pastiche de sempre: ..."a arte brasileira contemporânea esta bombando nos grandes centros do mundo desenvolvido, bla, bla, bla"

_É mesmo!Que troço colonizado! Antes esses procedimentos eram um tanto comedidos, tratados com um pouco mais de sobriedade. Hoje é escachado. Os curadores trocam figurinhas abertamente, não vê quem não quer se aborrecer, se desgastar. A dimensão continental e a multiplicidade da produção estética local se reduziram a um joguinho entre colegas. Além do mais, a perversa escassez de recursos, a precária infra-estrutura institucional e um mercado incipiente imobilizam os artistas que não tem fluência no sistema. A mídia contribui divulgando apenas o que considera consagrado. No caso a opinião de curadores ou as altas cifras em jogo no mercado da arte.

_Os curadores, ao enaltecerem seus procedimentos, não deixando claro suas participações nas estratégias de negociação da arte, tornam mais densa a cortina de fumaça que confunde ainda mais as pessoas as levando a focar preferencialmente o fenômeno financeiro.
Oh! Estupendo! Dizem alguns. Argh!Especulação, dizem outros. E, fica por aí! Nos dois casos, as únicas referências "visíveis" são a fama do artista e o preço. Sobre a obra de arte propriamente dita, nada se comenta. O campo das artes tornou-se uma espécie de território interdito. Hoje, se contrapor ou criticar obras contemporâneas tornou-se uma atitude indesejável, proibida mesmo. Nessas circunstancias, o fato dos valores atingirem a estratosfera tornando-se uma abstração e as referências se constituírem em vagas citações de intermediários do negocio é um contra-senso repreender as pessoas que voltam sua atenção às transações financeiras como quem vislumbra um enigma mais inquietante no mercado que na própria arte. É licito desprezar alguém por ter visto o que é óbvio?
Acrescente-se a isso uma ocorrência singular. De um tempo para cá diluíram-se as fronteiras que diferenciam um trabalho de escola vanguardista de uma obra tradicional, digamos assim.Tornaram-se apenas métodos distintos.Os dois procedimentos encontram abrigo tanto nas instituições quanto no mercado. O que isso significa? Que o mercado e as instituições oficiais tornaram-se mais sábias e tolerantes ou, a arte dos nossos dias tornou-se a tal ponto previsível que se ajusta rapidamente às demandas do público por novidades? Só uma fidelidade extrema nos levaria a crer que as vanguardas da atualidade possuem o poder de impactar a sociedade.Marcar a diferença!Ora!Pra que? Se esse é o ponto que amalgama a produção de vanguarda ao que há de mais reacionário na sociedade de consumo, pra que inventar uma fábula infantil? As silenciosas disputas pela ocupação dos espaços prestigiosos como as bienais internacionais, por exemplo, são apenas pretextos para ocultar estratégias midiáticas e mercantis. Essas instituições há muito deixaram de ser locais onde transitam experiências estéticas inusitadas. Se tornarem vitrines mega promocionais de modelos estéticos dominantes. Nessa conjuntura o dinheiro foi mais poderoso e eficaz na absorção das diferenças do que o tempo, a reflexão critica e a discussão sobre a arte. É isso! O dinheiro produz efeitos ambíguos e curiosos, pois, ainda que transfira importância para um produto, não obstrui a divergência de opiniões sobre a forma de aferição e credenciamento. Você pode falar o que quiser do dinheiro despejado sobre um evento ou mesmo do preço de compra de uma obra de arte, porém, não ouse criticar uma obra ou um tipo de produção estética da escola vanguardista, isso não!Isso é proibido. Se não é decoro e protecionismo, que titulo daríamos as reações intempestivas dos adeptos desse procedimento?
Essa constatação me enche de perguntas que não encontram respostas nas atitudes correntes no atual sistema da arte.
Por que os artistas das escolas vanguardistas evitam discutir os interesses em jogo no setor cultural e fecham-se em colóquios "especializados" onde só participam os grupos detentores de códigos comuns? Estariam eles participando de uma junta de planejamento estratégico ultra-secreto? Se ajoelhar diante dos produtos estéticos contemporâneos é uma expressão sincera e admirável de reconhecimento? Esse troço me parece mais um hábito religioso. Uma obediência servil a uma seita secreta que pretende divulgar mais uma verdade num mundo exaurido de verdades.
Algumas pessoas crêem que se opor ao poder do dinheiro na arte é uma ingenuidade. Os mais afoitos afirmam que o antagonismo ao sistema é uma batalha travada por um exército de imbecis, dado que a interação arte/poder (leia-se:dinheirto) se funda num pacto secular. Acreditam, certamente, que até a argamassa que juntou as pedras da muralha do saber e da arte, sabem que as coisas sempre foram assim e nunca serão diferentes. Oh!Deus, diante dessa sentença a sensação de inércia se apodera dos meus sentidos. Enaltecer uma obra de arte a partir do preço é um expediente tão insípido quanto um ataque de euforia verbal para anunciar um gosto pessoal. Contudo, até a histeria das torcidas apaixonadas tornou-se uma espécie de trincheira da contemporaneidade. Quantas vezes já não ouvimos: Oh! Amei tal instalação, caí de joelhos diante da obra do fulano. Exaltações verbais desse teor tornaram-se tão corriqueiras entre os freqüentadores do circuito de arte quanto uma cervejinha gelada no verão escaldante. Cair de joelhos diante de um trabalho da vanguarda contemporânea é algo inconcebível para um ente que se beneficiou dos avanços da modernidade, contudo, tal manifestação tornou-se comum. A síndrome do Best Seller debilita suas vitimas as colocando imóveis ao alcance da mira do marketing das estrelas!
O que mais choca nessa crendice absurda é a fragilidade crítica de indivíduos supostamente cultos. Parece coisa de maluco! Como um sujeito informado ainda se submete aos códigos dominantes sem sequer se perguntar por quê?
Ao expor de forma tão intensa seus sentimentos diante da arte, esses indivíduos realizam duas operações num só ato. Na primeira obstruem a potencia do sujeito frente aos códigos dominantes e, na segunda, anulam qualquer perspectiva de opinião contraria, pois, a fé é um domínio exclusivo do sujeito. Como se contrapor a fé? Com uma guerra santa? Uma revolução cultural?
Essa situação revela o enorme poder dos meios sobre a produção artística. O poder do dinheiro exacerba a desconfiança, inclusive, na própria escolha pessoal. O feitiço se cumpre na pratica com o retorno de um tipo de respeito imposto. Algo parecido com uma crença tirânica da antiguidade. Mas, no teatro das ocorrências culturais, é recomendável que os artistas pareçam livres, contestadores e independentes do sistema. Ocorre que incontáveis atividades profissionais do campo da cultura sofreram, nos últimos trinta anos, mudanças consideráveis. Algumas, como a critica de arte, por exemplo, estão em vias de desaparecer. Outras,como os agenciadores de marketing e os curadores subiram aos céus. Vimos surgir recentemente um tipo de celebridade que chamo de ansioso blasé.

_Han? Ansioso blasé? Como assim?

_Explico! No teatro das artes cada um representa um personagem bem definido. Nada mais eficiente para uma performance mistificadora que um artista cético com poderes supremos para converter fiéis em causa própria. Esse procedimento exige um desempenho considerável onde a ansiedade e os arranjos mundanos da escalada ao topo devem ser elegantemente camuflados por uma atitude aparentemente blasé.
Ninguém sobe ofegante e com a camisa suada no pódio da grande arte. É conveniente que essa ascensão ocorra de forma divina, envolta por uma atmosfera tão natural quanto um plácido lago povoado de ninfas.

Adriano De Aquino
Natal de 2010.

Avançados & Reacionários. A convergência dos extremos - Por Adriano de Aquino

Adriano de Aquino - Reflexões sobre arte e cultura

Escritas na forma de diálogo entre personagens virtuais que transitam entre a dor de consciência, as maldades, exitos e contradições existenciais de um criador de arte frente as benesses no reino da economia suprema e do mercado gestor, estas reflexões sobre arte e cultura, de Adriano de Aquino, abrem questoes de forma inteligente e pouco convencional.

Avançados & Reacionários. A convergência dos extremos

_As grandes mostras da arte mais recente democratizam o acesso à cultura. Os curadores são peças vitais nesse jogo. São artistas também. Eles estenderam a arte da atualidade em direção ao grande público a disponibilizando ao nível de Ilustrações, sacadas antropológicas estetizadas, recortes biográficos, ou, ainda, estratégias de marketing!

_Meu Deus! Seu comentário é bastante reacionário. Isso é tudo que tem a dizer sobre as artes visuais do nosso tempo?

_Ora, minha amiga! Dizendo isso você me surpreende. Sempre a considerei uma pessoa avançada. De repente ouço-a repetindo a mesmice dominante. Joseph Beyus (1921-86), com uma lebre no colo e o rosto coberto de gordura, há muito tempo declarou para seus discípulos e para o mundo da arte que: toda pessoa é um artista. Restringir, portanto, essa titularidade apenas aos artistas militantes, de carreira confirmada e currículo transglobal e aos curadores, é indício de forte conservadorismo. Nos idos dos anos 70 Beyus- contraditoriamente ou não- já se destacava como um dos mais importantes "artistas" da Europa. Seu tributo para a percepção da arte e para o fazer artístico contemporâneo, digamos assim, centrava na idéia de que os materiais são,em si, sentido e significado, melhor dizendo; os diversos e mais dispares materiais, fabricados para finalidades artísticas ou não, são plenos de sentido e significado. Seu pensamento sobre arte partia do entendimento de que a criação é ação sobre o mundo e a realidade.Para que esse procedimento se efetivasse enquanto criação, Beyus agia de forma a integrar gesto,ação e objetos ao mundo. Durante sua "vida artística" ele recusou categorizar seus atos com rótulos tipo performance ou instalação. Para ele, eram ações, ações efetivas de transformação do mundo. Sua "obra de arte" é a expressão de sua militância enquanto pessoa sensível, ou, sei lá, artista, que é a titularidade conferida pela sociedade àqueles que criam coisas artísticas. Para Beyus qualquer material ou objeto,quando tocado pelo gesto criador, torna-se arte. Sua proposta é radical e a podemos resumir da seguinte forma; tudo é passível de se tornar arte,basta para isso que se desperte a arte que existe nas coisas através do toque criativo que sensibiliza os objetos e os materiais. Sua historia pessoal é pontuada de eventos curiosos. Em 1943, então jovem telegrafista das forças armadas da Alemanha , tripulava um avião da Luftwaffe nazista que foi derrubado num deserto de rochas da Criméia. Fato ou não, é a partir dali, que Beyus fundou sua mitologia,onde a criatividade tem um "dever" transformador dos sentidos,das substancias e dos significados das coisas materiais .Para ele ,é esse "novo uso" dos materiais que confere significados poderosos as coisas as tornando capazes de "curar" o mundo. É possível, quem sabe?que sua formação militar transferiu para a esfera do dever o que para um artista seria,sobretudo, um mistério embutido nas relações criativas com as coisas e o mundo. Desde aquela ocasião, como você sabe, eu abandonei por completo qualquer intento de me identificar como artista catalogado,cumpridor de uma atividade regular de abastecimento do mercado de arte,das instituições culturais e da própria sociedade. Abandonei radicalmente qualquer referencia curricular à atividade artística que desempenhei outrora. Alguns sites e publicações ainda insistem em me inserir no escopo dos artistas em atividade. Por mais que eu me esmere em negar, apagando os registros da minha biografia "artística", sempre aparece um texto cult que me insere de volta no mundo das artes. Isso se tornou uma espécie de tormento! Até a sacralização do mictório de Duchamp-que demorou um período bastante longo para subir ao pódio da grande arte- eu ainda acreditava que ser artista era subverter o sistema rumo à transcendência criativa. Porém, hoje, estou certo de que tudo não passou de um sonho. Anos se passaram e vimos consolidar uma poderosa estrutura de mercado e ações institucionais cada vez mais aprimoradas e velozes. Nunca na historia da humanidade a contravenção estética e a marginalidade cultural ficaram tão próximas do sistema. As atitudes, até mesmo as ações mais radicais da contra cultura,se tornaram adereços de produtos anódinos. Pra falar a verdade, de um tempo para cá, o sistema amalgamou tudo de tal maneira que a "recuperação" e a inserção mercantil e institucional da arte dita insurreta ou, se preferir, nova, revolucionaria, se tornou uma pratica vulgar. Qualquer brechó do subúrbio tem na ponta dos dedos os mecanismos de inserção institucional e mercadológica para um artista soi dissant maldito. Basta que ele tenha uma rede de compradores, um marqueteiro eficiente, uma dondoca entusiasta da arte arrojada e um cartão de crédito ilimitado. A arte atual é tão volúvel e trivial quanto a moda inspirada nas estações do ano. Recentemente os artistas comprometidos com a arte avançada e seus seguidores progressistas ficaram putos da vida quando Walter Robinson escreveu: Não existem mais movimentos de arte. Existem movimentos de mercado. Diante do cenário cultural da atualidade é difícil contra argumentar essa máxima. Os artistas avançados deram de ombros, seus seguidores desprezaram qualquer reflexão e,assim, o sistema não se moveu do lugar. Como se contrapor à dura critica de Donald Kuspit sobre a inversão dos valores no campo da arte? Tem-se que ter uma argumentação consistente para contestar o fato de que: o dinheiro já não fomenta a arte, a arte serve e obedece aos ditames do dinheiro. Quando o dinheiro lança suas bênçãos sobre a arte ele transforma Júpiter em Danae e a arte se ajoelha a seus pés em sinal de gratidão(...) o dinheiro tornou-se eterno e transcendental, o artista que não enxerga valor num talão de cheques é visto hoje como um tolo autodestrutivo(...)testemunhamos o coroamento lento mas constante do dinheiro na arte. A escalada de preços confirma que a capitalização da arte está completa. O dinheiro conquistou completamente a arte transformando-a numa espécie de dinheiro
A convergência exacerbada da arte com o dinheiro a iguala ao dinheiro. Como buscar a transcendência num território tão inóspito? Se não há transcendência inexiste transformação.Tudo tende a permanecer igual. A estética contemporânea foi cooptada pelo dinheiro e se transformou num modo operante que identifica os códigos, atitudes e obras da vanguarda contemporânea,hoje predominantes nas grandes mostras internacionais de arte. Se os artistas não podiam fazer isso sozinhos surgiu no cenário cultural uma força expedicionária pronta para o serviço; os curadores. Eles são uma espécie de filtro que retém ruídos e abafam contrastes. A melhor coisa para o avanço de um sistema e o aporte de fluxos financeiros advém do certificado institucional conferido, sobretudo, pelas grandes exposições de estética mundialista. Os curadores são uma espécie de conferentes alfandegários. Eles são parte ativa do sistema. Carimbam a entrada e a saída de produtos e atuam,direta ou indiretamente, nos indicadores de preços que atraem capitais para o empreendimento. Trata-se de um contingente estratégico para os negociantes e contribui para maior eficiência do sistema.Reações intempestivas contra esse processo também são passíveis de ser engolfada pela metodologia vencedora. Tornaram-se apenas protestos isolados que retro alimentam o próprio sistema. Inexiste eficácia real e contundente no discurso tradicionalista, tendo em vista que ele se funda em geral numa espécie de retorno nostálgico aos valores do passado. Nesse sentido funcionam como voz discordante que enfatiza ainda mais a importância daquilo a que se contrapõem.Como podemos perceber nesse enunciado, tanto os avançados quanto os reacionários são ferramentas úteis de um mesmo processo.

Espanha divulga telas roubadas

Fonte: Correio da Manhã - Ana Maria Ribeiro com agências, 30.12.2010

Numa tentativa desesperada para conseguir recuperar obras de arte roubadas, a Polícia Nacional de Espanha acaba de difundir imagens de quadros que se acredita estarem em circulação no mercado negro e poderem atingir preços exorbitantes. Alguns deles, de artistas de primeira linha, como Picasso, Cézanne, Van Gogh, Joaquín Sorolla ou Rembrandt, num total estimado em várias centenas de milhões de euros. Algumas obras desapareceram há 20 anos.

Dama Desconhecida’, Velázquez

Os casos de arte roubada estão entregues em Espanha à Brigada de Património Histórico – departamento já distinguido várias vezes pelo seu bom desempenho na procura de objectos artísticos desaparecidos no Mundo inteiro.

A brigada criou, há mais de dez anos, uma base de dados pioneira, a ‘Dulcinea’, partilhada por toda a polícia espanhola e que pode ser consultada até nos carros de patrulha. Da lista constam mais de oito mil peças, entre pinturas, esculturas ou artefactos arqueológicos.

No entanto, mesmo com toda a informação a circular, há peças que ‘teimam’ em não aparecer e algumas estão desaparecidas há 20 anos, como ‘Dama Desconhecida’, quadro de Velázquez roubado do Palácio Real de Madrid em 1989.

A lista inclui ainda telas roubadas recentemente, como ‘O Pombo e as Ervilhas’, de Picasso, e ‘A Pastoral’, de Matisse, ambas surripiadas em Maio deste ano do Museu de Arte Moderna de Paris.

Entre as mais procuradas pela polícia – até pelo seu valor extraordinário –, está a tela ‘Auvers sur Oise’, de Paul Cézanne, avaliada em 4,8 milhões de euros e misteriosamente desaparecida do Museu Ashmolean de Oxford, no Reino Unido, em 2000.

Da base de dados constam ainda ‘Giestas e Papoilas’, de Van Gogh, roubada no Egipto, e ‘Mulher com Chapéu’, de Toulouse-Lautrec, roubada em Itália.