terça-feira, julho 13, 2010

Mitos Vadios

Por: Jacob Klintowitz

Era um domingo, 5 de novembro de 1978, quando finalmente aconteceu o muito anunciado “Mitos Vadios” (criação, controle de qualidade e coordenação de Ivald Granato, estacionamento da Unipark, rua Augusta, 2918). Tratava-se de um grande happening que pretendia contestar a 1a. e última Bienal Latino-Americana e o seu tema, “Mitos e Magia”. Em que se constituiu o episódio?


O episódio se compôs da presença de alguns artistas que se “manifestaram”, alguns espectadores, na sua maioria absoluta, jornalistas, marchands e figurantes habituais das inaugurações. Os artistas principais foram Ivald Granato, Hélio Oiticica, Claudio Tozzi, Ana Maria Maiolino, José Roberto Aguilar, Antonio Manuel, Júlio Plaza, Olney Kruse (mandou só a obra), Regina Vater, Portilhos e Ubirajara Ribeiro. Os dois últimos, surrealistícamente, também participaram da Bienal de São Paulo. E o que disseram e propuseram estes artistas?


Hélio Oiticica, por seus títulos, a principal presença, fantasiou-se de sunga, sapatos prateados estilo Boris Karlof, blusão cor-de-rosa, rosto maquiadíssimo e peruca feminina. Depois, desfilou entre o pequeno público, fez trejeitos com a língua (imagino que fosse uma paródia erótica) e, com a ajuda das mãos, sacudiu os órgãos genitais para o público. Após esta contundente crítica social subiu num pequeno muro, montou à cavaleiro e ficou à disposição para novas opiniões sobre a arte e o seu circuito, enquanto continuava, em ritmo mais acelerado, a fazer movimentos com a língua.

José Roberto Aguilar, com uma espada japonesa reproduziu a feroz “luta do samurai”, quando investiu contra bonecos apelidados de Omissão Cultural, Bom Gosto, Pacote Cultural e Crítica Colonizada. Curiosamente, Aguilar é o artista que fazia videocassete com equipamento importado e que raramente os apresentava ao público, uma vez que não existiam locais apropriados, já que o Brasil não produzia estes equipamentos.

Júlio Plaza distribuiu pequenos papéis com slogans contra a arte, o circuito de arte e a crítica de arte. A marchande Mônica Filgueiras vibrou com os slogans, especialmente o sobre a crítica de arte e me perguntou: e este – a crítica de arte é o preservativo da arte – o que você acha? O que respondi, seu curioso? Que eu prefiro julgar pelo conjunto da obra.

Ana Maria Maiolino colocou numa pequena mesa um saco de feijão e outro de arroz, amarrou-os com uma fita preta e chamou-os de “Monumento à Fome”. E, como extravasa criatividade, aproveitou um pedaço de parede para pendurar rolos de papel higiênico de cores diferentes, jornais e uma grossa folha de papel. Ácido comentário alusivo aos hábitos de higiene da humanidade.

Ubirajara Ribeiro escolheu cinco famosas obras de arte, imprimiu-as e fez com ela tiro ao alvo. Desta maneira, o público poderia destruir as imagens. Desmistificando a arte (é claro que a Mona Lisa estava entre as cinco) num gesto que se repete ad nauseans, há várias décadas, quando Marcel Duchamp pintou bigodes numa reprodução da Mona Lisa. Ubirajara acrescentou a este gesto, os “alvos” do americano Jaspers Johns.


Ivald Granato, fiel à sua liderança, fez uma performance estelar para afirmar que o seu nome não era Ciccilo Matarazzo, fundador da Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna e do Museu de Arte Contemporânea. O que nos espantou e chocou gravemente, pois tínhamos a esperança de que ele fosse o próprio Ciccilo Matarazzo.

Antonio Manuel, também, presente, felizmente não ficou nu, não botou ovos, nem se sentou num ninho, performances anteriores que o tornaram justamente famoso, entre nós. Isto foi o principal. Outros artistas, enfim, com menor talento dramático, tiveram atuação menos destacada.

Quanto à questão do mito… parece que não foi desta vez que Jung, Cassirer, Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Mircea Eliade, receberão uma contribuição mais eficaz. Quanto à critica à Bienal de São Paulo, pareceu-me interessante: como poderia a Bienal de São Paulo concorrer com a expressividade ideológica de Hélio Oiticica? E, quanto ao próprio mérito intrínseco do acontecimento, caberá ao tempo estabelecer a justa valoração.

Este texto procura resgatar do limbo esta história que se desmanchou no ar.

3 comentários:

  1. Arte é a pergunta, crítica é a resposta.
    Cadu Lacerda

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  2. Ei! e a Lygia Pape? o que ela fez nesse dia? ela estava lá não é?

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