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sábado, agosto 07, 2010

Arte pós humanista - Uma cronica :: Adriano de Aquino

Genial esta cronica de Adriano de Aquino.
Qualquer semelhança seria mera coincidência?

Para Rá Antunes a palavra ateliê é apenas uma menção nostálgica e antiquada de um lugar mítico onde artistas da antiguidade pós moderna criavam e produziam obras de arte. Rá, é um expoente da primeira casta de artistas do pós humanismo. É um sujeito dinâmico e ultra-flexível, Suas “incisões estéticas” - referencias históricas e inscrições duchampianas já estão fora de moda - são "criadas" em diversos laboratórios espalhados nas centenas de bienais que ocorrem em todo o planeta . Mas, antes de falar das virtudes de Rá é adequado que eu os apresente seu principal teórico e articulador político. É bom que saibam de antemão que no pós humanismo não existe arte sem política pessoal. Dionísio Pepper é, nesse contexto, uma peça crucial das estratégias avançadas de Rá.

Mas, quem é Dionísio?

Uma biografia resumida, já que a militância artística de Dionísio é bastante breve e veloz, nos informa que ele foi formado em economia numa faculdade de Alagoas. Por força de sua simpatia e entrosamento com a alta sociedade local foi o único de sua turma a ser beneficiado com uma bolsa de estudos em Londres onde, durante um longo e penoso ano, freqüentou um curso de marketing financeiro num famoso MBA inglês. De volta ao Brasil se empregou num grande banco paulista.

Durante sua temporada londrina compactou seus desejos num formulário de objetivos precisos. Dependia da economia, mas, sua sensibilidade para arte também podia ser aplicada economicamente. Por que não? Perguntava-se. Hoje, qualquer um que some lé com cré pode se destacar no ambiente cultural.

-No conjunto de experts em arte no Brasil, eu sou um gênio!Especulava entusiasmado.

Como ninguém é de ferro, nas horas vagas Dionísio passeava nos museus ingleses. Numa dessas andanças, extasiado diante de uma obra de Damien Hirst, Dionísio esbarrou em Herbert Ward. Na troca de desculpas e gentilezas os dois terminaram sentados na cafeteria do museu trocando figurinhas. Após as apresentações de praxe Herbert foi direto ao ponto revelando que se colocara estrategicamente como um obstáculo entre Dionísio e a obra do mais famoso star da arte pós humana. Hesitante por alguns segundos, Ward acrescentou que fez isso porque ficara comovido com a entrega total de Dionísio à obra de Hirst e que isso o havia provocado intensamente. Emocionado, Dionísio esqueceu os compromissos da tarde e os dois saíram a passear pelas simpáticas ruas londrinas. Num ponto nostálgico de Carnaby Street, Ward confidenciou que essa tarde havia sido maravilhosa para ele. Disse baixinho que antes do encontro com Dionísio estava tenso e angustiado pois, por coincidência, nessa mesma tarde, a comissão do Royal Scholl of Art estava reunida para decidir entre três nomes, aquele que seria o curador da mais nova bienal do planeta- A Bienal do Cazaquistão.

Os dois se despediram na frente da entrada do metro, não sem antes Ward propor trocarem seus números de telefones.Na oportunidade insinuou que gostaria de comunicar a Dionísio a decisão do Real Conselho.

Ward se tornou curador. Logo se entende o que os dois comemoraram a luz de velas num restaurante próximo ao Royal Museum, local onde haviam se conhecido. Depois desse comovente jantar os dois passaram a dividir um único lençol e a comungarem a mesma profissão.

Desse entrosamento afetivo nasceu o Dionísio que conhecemos. Teórico, professor de arte, curador e consultor artístico de grandes empresas e coleções de arte brasileiras. Ainda que seu maior êxito editorial seja a enorme coleção de passaportes integralmente carimbados e com todas as folhas, frente e verso, esgotadas. Dionísio deu muitas entrevistas e publicou quatro livros sobre arte contemporânea. Todos, direta ou indiretamente, vinculados à obra de Rá. O texto mais notável de Dionísio teve o triunfante titulo: Das Glorias de ser curador de Bienal.

Nesse ínterim Rá dava murros em ponta de faca para vencer os contratempos e o fervor moral dos pós – pós - modernistas.

Suas experiências laboratoriais estavam travadas por falta de compreensão das autoridades e absoluto desinteresse do mercado de arte.

O problema com o mercado era facilmente resolvido já que Rá tinha uma malta de fiéis seguidores dentro da burocracia cultural Planaltina. Sempre que podiam o colocavam num projeto incentivado. O clube dos curadores sistematicamente o indicava para uma Bienal. Seja do Mercosul,Veneza ou Venezuela. Vai daí que Rá participava em media,num ano, de dezoito bienais mundo afora.Tudo devidamente subvencionado.

Não esqueçam que Rá já havia participado de duas quadrienais de Kassel. Sua ultima participação foi motivo da publicação de um caderno especial da Folha de São Paulo pleno de elogios. Até o ministro da cultura participou da iniciativa comprando uma página inteira do caderno para publicar um anuncio do governo.

Mas, mesmo esse sucesso todo não tranqüilizava Rá. Ele queria mais!Sabia que podia mais!

Suas pesquisas NeuroEstéticas estavam ocorrendo na clandestinidade. Isso o aborrecia terrivelmente.

Rá estava estafado, ansioso e revoltado. Uma editora especializada em arte pós humana estava insistindo há mais de um ano para que ele publicasse mais um livro de Obras Completas.

-Ora, já fiz nove livros de obras completas em 12 anos de carreira artística. O que esses caras querem de mim?Sugar meu sangue? Esbravejava pelos cantos do seu laboratório doméstico. Um apartamento no Leme totalmente decorado com suas incisões estéticas. Esse era seu refugio que, aliás, já tinha sido mostrado ao publico pela mídia quando de uma entrevista sobre seu sucesso internacional e suas idéias para a nova arte global.

-O que eu quero não me permitem fazer. Resmungava por entre tubos de ensaio,fios condutores,plasmas e cérebros humanos imersos em líquido colorido dentro de compartimentos vítreos.

-É o moralismo religioso dessa gente hipócrita!Dizia em tom baixo, quase inaudível.

-A reação dos marchands que investiram pesado na arte pós pós moderna é de um conservadorismo atroz e depravado. Coisa do passado remoto, ainda protegido pela fé duchampiana. Vocês não imaginam como esse troço atrapalha os avanços estéticos e atravanca minhas experiências! Confidenciou Rá a seus embasbacados admiradores mais íntimos.

Todavia, o providencial retorno de Dionísio ao Brasil salvou o futuro de interveniências antiquadas e improdutivas.

Vejam o que diz Rá sobre isso:

-Minha ultima IncisãoEstética proposta para a Bienal foi quase vetada porque um bando de petulantes resolveu impedir que Dionísio em co-curadoria com Hebert Ward mais aquela senhora de Kassel que não lembro o nome e o curador atual da Bienal do Cazaquistão;Severino Albuquerque Cavalcanti, tornassem o primeiro andar do pavilhão da Bienal de São Paulo um laboratório neuro-estetico a céu aberto, que dizer, não totalmente aberto, já que estaria protegido pela construção.

- Meu Deus, isso é pura ignorância! Protestou Mairá Deware, a mais famosa instaladora artística do pós humanismo.

-Cai de joelhos, em transe religioso, quando visitei esse ano sua exposição Caos Cibernético, no palácio do governo da Bahia. Disse Mairá.

-Meu Deus!Como não deixar o povo ver aquela maravilhosa fileira de homens e mulheres, com o tampo da cabeça decepado, porém, vivos, cérebro à mostra, sobre os quais você motivava impulsos elétricos estimulando as áreas do prazer e da dor? Gente imbecil, nem ao menos sabem que o cérebro não sente dor!

-Tive um ataque de nervos quando um artista provinciano que tem o nome de um centurião romano resolveu quebrar tudo e liberar os suportes, quer dizer, os corpos humanos. Pra mim, o cara quis fazer um “contra evento” e criar fama internacional nas suas costas! Concluiu Mairá.

-Deixa pra lá, são os ossos do oficio. Retrucou Rá

-É verdade!Complementou Ermenegildo Neto um artista sub-intelectualizado em voga no momento.

-É inesquecível!Aquelas fileiras humanas dispostas simetricamente. Para mim era uma critica contundente ao nazismo.Não via quem não quisesse ver,ou tivesse olhos pra ver.Me emocionei ainda mais com aquela tenda negra,misteriosa e impenetrável que com uma luz tênue a piscar aleatoriamente nos remetia aos mistérios da mente,quer dizer,do cérebro,ou melhor dos dois,né? Concluiu Ermenegildo.

Resumindo, as relações políticas de Dionísio, o apoio da mídia e do presidente da Bienal de São Paulo firmaram um pacto positivo protegendo com determinação e empenho a liberdade de expressão. Os artistas pós humanos são devedores do esforço e dedicação de poucos para o beneficio de muitos, mas,sobretudo, para o avanço da Arte.

segunda-feira, agosto 02, 2010

ARTE VIROU GRIFFE

Por Octaviano Moniz (Tatau)
Foto: Retrato do Tatau :: por Ivald Granato

Eu vou sair do sertão num pau-de-arara e a viagem vai virar documentário. Vou pra Sampa, a megalópole. Não levo nada, só um par de Havaianas (patrocinado que não dou mole),1kg de carne seca, muita farinha e minha inseparável Glock. Se alguém vier tirar onda em cima do baiano leva chumbo. Vai ser uma performance a la Anish Kapoor, só que a minha vai ser melhor, sem metáforas, onomatopéias, cacofonias e outras frescuras que artistas e cú-ra-dores adoram, claro, depois do vibrador japonês com I Pad e Kindle. Rios de sangue intelectualóides, vísceras de hipertexto, corações de hashtags. Tatau in concert. Aguardem, o MITOS VADIOS II. Granato vai abalar as estruturas desta Bienal caduca, que não muda desde 51, antes de JK, o mundo mudou pseudo filósofos. Este modelo não atende mais a sociedade brasileira nem mundial, são mais de 200, virou moeda de troca, a mão invisível do mercado se apossou da mostra(Adam Smith) e os artistas ficaram relegados a um banquinho sentados olhando os espectadores verem as obras como as madames vêem objetos da Hermes, da Courreges, arte virou griffe.

domingo, julho 18, 2010

"A Bienal esmagou a arte brasileira"

Vik Muniz

para Ivan Claudio da ISTOÉ - 20.04.2009


O artista plástico experimenta o gosto da popularidade e diz que a Bienal de São Paulo boicota os novos talentos.

ISTOÉ - Megamostras como a Bienal de São Paulo, que corre o risco de não acontecer no ano que vem, ainda fazem sentido?


VIK MUNIZ - Eu nunca acreditei muito nessas megamostras, acho que elas precisam ter um desenho diferente. Quando expus em Veneza, alguém me perguntou se eu não estava contente por ter meu trabalho visto por 30 mil pessoas. Eu disse que estaria mais contente se elas não estivessem vendo 30 mil outros artistas.


ISTOÉ - O sr. não acha que hoje os artistas têm uma visibilidade maior?


VIK MUNIZ - Somos ainda muito poucos. Rivane Neuenschwander, Ernesto Neto, Beatriz Milhazes, nós somos todos amigos, temos o celular um do outro. É ridículo. Uma bienal acontece de dois em dois anos para atualizar o público com uma mostra que abrange a produção de um país. O interesse dela é a contemporaneidade, não o tamanho. Cada vez mais a representação nacional foi sendo esmagada, ficou menor e menos importante. Isso tem que ser completamente mudado.


ISTOÉ - A Bienal ainda projeta a arte brasileira internacionalmente?


MUNIZ -Mas qual arte brasileira? Hélio Oiticica e Lygia Clark? Todo mundo os conhece. Arte brasileira não é só Hélio e Lygia, que são excelentes artistas. E os jovens? São centenas, milhares de pessoas que vivem esse sonho de expor numa galeria no Exterior e dependem desse público que vem de dois em dois anos para ver a Bienal. É quando os jovens têm uma chance de mostrar sua obra. Mesmo que só a vejam e não a comprem.


ISTOÉ - No Rio de Janeiro, sua exposicao foi vista por mais de 40 mil pessoas. Qual é o gosto da popularidade?


MUNIZ - Um taxista que me levava para o aeroporto Antônio Carlos Jobim me recomendou a mostra. Disse que tinha uma exposição em cartaz que eu não podia perder. Eu falei que era minha e ele disse que eu estava de sacanagem. Isso para mim é mais importante que o sucesso de crítica.


ISTOÉ - A opinião do taxista vale mais que uma resenha positiva?


MUNIZ - As duas opiniões são importantes. Mas estou cansado desse meu público, de fazer uma exposição de sucesso com uma crítica boa no The New York Times e ter 1.500 visitantes ao final. Não é nem pelo número de pessoas. É pelo perfil de quem vai ver.


ISTOÉ - Que público o sr. almeja?


MUNIZ - Meu público hoje é feito de crianças, vovós, do guarda do museu, do manobrista. Faço arte para todo mundo. Quero ser visto pela família inteira e também pela empregada. Criança, então, é o crítico mais difícil. Se ela não gosta, logo diz: isso é uma porcaria. No Rio tinha um mar de crianças e elas estavam adorando.


ISTOÉ - Essa posição não é comum na arte contemporânea.


MUNIZ - O artista tem sempre essa coisa paranoica de pensar que ninguém o entende. Na verdade, isso é uma lorota. Quando ele escuta de uma pessoa comum que o trabalho dele o fez ver as coisas de modo diferente, é o melhor dia da vida dele.


ISTOÉ - O sr. fez um retrato do presidente Lula só com confetes de páginas de revistas. Como se aproximou dele?


MUNIZ - Foi em Ribeirão Preto, na inauguração de uma usina. Como ele estava no cerimonial, consegui 15 minutos e o fotografei. Ele perguntou para o que era e eu falei que era artista plástico. Ele não me conhecia.


ISTOÉ - O sr. mandou o trabalho para ele?


MUNIZ - Não, ele não pediu.


ISTOÉ - O sr. esperava esse sucesso no Brasil?


MUNIZ - Não esperava, mas sonhava com ele. A primeira vez que meus pais foram a um museu foi para ver um trabalho meu. E pela expressão deles, via como estavam aterrorizados. Exposições de arte contemporânea são um ambiente um tanto opressivo, lidam com códigos e linguagens aos quais as pessoas não têm acesso. É uma coisa sinistra. Se você vai visitar uma galeria em Nova York, tem sempre um cara sentado numa cadeira alta, olhando para você com uma cara pernóstica. Eu fico pensando quanto esse sistema de galerias prejudica o artista.


ISTOÉ - Por quê?


MUNIZ - A galeria está ali para vender, mas o artista tem sede de comunicação. Ele quer se comunicar com o homem comum, que não é burro. Você deve ao público uma arte que é ao mesmo tempo inteligente e acessível. Os Simpsons, por exemplo, é apreciado por um Ph.D. da Universidade de Harvard e por uma criança de três anos. Esse é o grande desafio da arte contemporânea no século XXI.


ISTOÉ - Por que as galerias estão sempre vazias?


MUNIZ - As pessoas não entram e acho isso um erro. Não é só a galeria que inibe. A crítica também intimida porque ela tem uma terminologia erudita. Do outro lado, os museus estão voltados para a educação e não para a percepção. É uma admiração pelos mestres, parece que você tem de ajoelhar diante de certos quadros porque foram feitos por determinados artistas. O uso que faço da história da arte em meus trabalhos é uma forma de banalizar isso. Coloco um Rafael ao lado de um Bosch.


ISTOÉ - O sr. acha que as pessoas precisam de uma educação visual?


MUNIZ - Tenho conversado com muitas pessoas sobre a possibilidade de desenvolver um sério programa de alfabetização visual.


ISTOÉ - O sr. acha que as pessoas precisam de uma educação visual?


MUNIZ - Tenho conversado com muitas pessoas sobre a possibilidade de desenvolver um sério programa de alfabetização visual. Tenho 47 anos, a mesma idade de Barack Obama, estou chegando à idade do poder. O que eu quero fazer antes de morrer é tentar elevar a imagem ao nível da linguagem escrita como uma disciplina escolar. Isso não é tão dificil de fazer. Se acontecesse no Brasil, o País seria pioneiro. Tem condições de fazê-lo porque é um país onde a estrutura de mídia é enorme e sofisticada.


ISTOÉ - Mas justamente no Brasil onde a telenovela é hegemônica?


MUNIZ - A novela tem um efeito incrível porque é interativa. Ela é feita na medida em que a pesquisa indica quem o público quer que morra, quem o público quer que viva.


ISTOÉ - O sr. acompanha novela?


MUNIZ - Acompanho tudo. É claro que não vejo sempre. Vejo pedaços. Caminho das Índias, por exemplo, eu adoro. Eu gosto das novelas da Glória Perez. Elas são absurdas. Acho incrível se reproduzir a Índia no Projac com todos os seus estereótipos.


ISTOÉ - O sr. gosta pelo lado kitsch?


MUNIZ - Até que não. Acho a novela um espelho da sociedade, ela reflete o que as pessoas querem ver, tem essa generosidade. É possível enxergar muito do brasileiro nas tramas. Ela não é uma coisa independente, que molda a cabeça das pessoas. São as pessoas que moldam as novelas. Isso é formidável, é único.


ISTOÉ - De que novelas o sr. gostou?


MUNIZ - Gostei de América, de O clone. Lembro de uma cena formidável de América em que a Deborah Secco se escondia atrás dos carros nas ruas de Miami para a imigração não pegá-la. Eu ria tanto daquilo. Tinha uma coisa irreal. É como ler García Márquez ou Italo Calvino.


ISTOÉ - O que o sr. acha de outros artistas copiarem o seu estilo?


MUNIZ - Outro dia eu estava em São Paulo e as pessoas me disseram que haviam adorado o retrato que eu fiz da Hebe Camargo. Eu disse que até gostaria de ter feito um retrato dela, mas não tinha feito. Aconteceu a mesma coisa com o Gianecchini, que eu também nunca fiz. Teve também o caso de um restaurante, que tinha ilustrações feitas com comida, parecidas com meu trabalho. Minhas obras já venderam desde panetone até creme vaginal.


ISTOÉ - O sr. não faz nada para impedir isso?


MUNIZ - É uma hipocrisia muito grande você ter copyright sobre imagem e não sobre uma técnica. Eu não gosto nem de um nem de outro. O direito autoral atrasa o processo de desenvolvimento da imagem. Se alguém quiser copiar qualquer coisa minha, que copie. Não tem de pedir permissão.


ISTOÉ - O sr. pede permissão para fazer um retrato de uma celebridade?


MUNIZ - Quando uso uma foto existente, como no caso dos retratos de atrizes com diamantes, tenho de pedir autorização ao fotógrafo e ao retratado. A Elizabeth Taylor, por exemplo, pediu uma foto para ela e outra para o seu instituto de combate à Aids.


ISTOÉ - Suas fotos de diamantes são mais caras que os diamantes?


MUNIZ - Acabam sendo porque eles são, na verdade, muito pequenos. Foram ampliados. Os diamantes valem, ao todo, US$ 650 mil e foram emprestados. Acho esse paradoxo lindo. Parece com a história do Picasso. Ele viu uma casa belíssima, fez um desenho da casa e o trocou por ela. Isso é alquimia.


ISTOÉ - O sr. não acha perverso fazer trabalhos com lixo e colocá-los dentro da casa de pessoas ricas?


MUNIZ - O lixo representa toda história que a gente não quer contar. Se o rastro de resíduos que produzimos durante a vida nos seguisse seria a coisa mais vergonhosa que existe. Estamos sempre tentando esconder o lixo que produzimos, em todos os sentidos. Isso tem a ver com a morte, com o que não usamos mais. Não vejo como perversidade. Seria se eu estivesse colocando lixo real na casa das pessoas.


ISTOÉ - O sr. compra obra de arte?


MUNIZ - Só de artistas jovens. Compro com pouco dinheiro e só quando vejo um artista de talento. Tenho uma coleção de arte contemporânea, mas ela é feita de obras trocadas com artistas que conheço.


ISTOÉ - Vik Muniz é um bom investimento?


MUNIZ - Estou superfeliz com os meus preços. Um artigo do The New York Times disse que era uma injustiça porque artistas da minha geração, como Thomas Demand e Thomas Struth, estavam vendendo trabalhos por US$ 150 mil e eu por US$ 40 mil. Eu liguei para o jornal e reclamei. Quem põe o preço no meu trabalho sou eu. Olho para ele e pergunto: "Quanto eu pagaria por isso? Não pagaria mais que US$ 40 mil."