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quarta-feira, dezembro 29, 2010

David Hockney reúne em exposição desenhos feitos em iPhone e iPad

Ana Paula Sousa - Folha de SP/Ilustrada, 29.12.2010
Enviada Especial à Paris

E eis que da tela fez-se o pincel. Com o mesmo toque de dedo que nos faz alcançar um número de telefone ou o mapa de uma estrada, David Hockney, 73, criou cores, formas. Flores.

O pintor britânico reencontrou-se com o desenho quando, deitado na cama, na costa leste da Inglaterra, pegou o iPhone e, empurrado pela própria natureza de artista, se flagrou a transferir para a pequena tela o nascer do sol que via pela janela.

"Eu não teria desenhado a aurora se eu tivesse um lápis e um papel à mão. Foi a luminosidade da tela que me incitou", descreve, no texto feito para a exposição "David Hockney, Fleurs fraîches" (flores frescas), em cartaz na Fundação Pierre Bergé - Yves Saint Laurent, em Paris.

A mostra, que fica aberta até o dia 30 de janeiro, reúne 200 desenhos que Hockney, um dos mais importantes artistas contemporâneos, fez sobre iPhones e iPads.

As imagens que chegam a público surgiram nesse mesmo quarto com vista para o nascer do sol. O espaço, conta Hockney, era diariamente decorado com flores frescas.

"Aprender a desenhar é aprender a olhar e aprender a olhar não faz mal a ninguém", ensina, no texto.


David Hockney/iPad drawing
Imagens da exposição "Flores Frescas", que reúne 200 desenhos sem título feitos no decorrer deste ano por David Hockney
Imagens da mostra "Flores Frescas", que reúne 200 desenhos feitos no decorrer deste ano - David Hockney

NOVOS VALORES

Hockney, que já foi chamado de "o pintor mais célebre do mundo", e teve suas imagens da Califórnia transformadas em símbolo do hedonismo da sociedade atual, andava desaparecido do grande circuito. Não expunha em Paris desde 1999.

"Uma das vantagens de estar na periferia do mundo das artes é essa: posso observar melhor", declarou, numa longa entrevista à revista especializada "Artpress".

E ele observou que, se no iPad mudará muita coisa, da imprensa escrita à nossa relação com a tela da TV, não é possível achar que as artes plásticas passarão ao largo do seu impacto.

Seus desenhos, que perderiam todo o sentido se fossem impressos, uma vez que ganham vida apenas com a luminosidade da tela, procuram capturar algo que é específico das novas tecnologias.

Isso fica claro à entrada da exposição parisiense. Um vídeo mostra o pintor em ação. Os gestos, apesar de delicados, são velozes. A cada traço se segue a busca por uma nova cor, na própria tela.

Os desenhos têm um quê de primitivos. A provocação, evidentemente, não está nos traços em si, quase inocentes, mas na sua existência.

Como observa Hockney na "Artpress", a Sotheby's ou as galerias não saberiam o que fazer com esses desenhos que foram enviados, em forma de arquivo digital, a duas dezenas de pessoas.

"Ninguém se perguntou ainda quando isso custa", ponderou o artista que, antes de organizar a mostra, mandou seus desenhos para 20 amigos que têm iPhones.

"Como muita gente, ainda não encontrei uma maneira de receber por isso. Mas como esses desenhos dão muito prazer aos meus amigos, que importância isso tem?", pergunta, lúdico, no texto de apresentação.

domingo, agosto 29, 2010

Bienal de Artes de SP - Alternativa 2010

FOLHA DE SP :: 29.08.2010
Por Ivald Granato
A
rtista plástico e performático
Presidente da ONG G11 - Associação para o Desenvolvimento da Arte e Cultura.

Para este ano de 2010, já se desenha uma Bienal confusa, sem verdadeira preocupação com a arte, sem pesquisa sólida ou escolha fundamentada.
Depois da última Bienal de São Paulo, em 2008, pedimos uma real e profunda reflexão, pois nela não vimos arte em suas várias representações. Ficou, literalmente, um vazio depois de milhões de reais investidos no vazio.
Para este ano de 2010, já se desenha uma Bienal confusa, com declarações sem conceito definido: arte política, terreiro, posições desencontradas, explicações que mudam a cada dia, parecendo visar apenas agradar à mídia, sem uma verdadeira preocupação com a arte, sem pesquisa sólida ou escolha fundamentada.

Depois da crise, o mercado tenta novamente estender seu domínio, mas devemos ter posição firme, clara, para um melhor e mais promissor mundo da arte, promovendo ação e reflexão para alimentar com consistência a nossa cultura.
Já se faz notar que a Bienal maquiará uma feira, alternando interesses de mercado e grupos de amigos, em acordos previamente acertados, sem nenhuma lógica ou justificativa conceitual em benefício do desenvolvimento da arte.
Nenhuma pesquisa - ou conselho- para a formação do grupo curatorial, ignorando o exemplo da Bienal de Walter Zanini, Sheila Leiner (a grande parede) ou ainda de Roberto Muylaert (que gerou tradição e ruptura).

A chamada de ordem do poder econômico grita mais alto e não é, necessariamente, a real expressão da arte. Arte política se faz por simbolismos, denunciando poderes autoritários ou regimes de repressão, sejam eles políticos, religiosos ou sectários.
Daí a ideia de fazer política democrática organizando uma manifestação para que todos os artistas possam levar sua mensagem por meio de uma obra, de qualquer estilo ou forma, para fazermos um grande cordão em volta do prédio da Bienal, fazendo mostrar que não conhecem a produção real da arte.
Será esta a possibilidade de mostrarmos o que verdadeiramente se produz atualmente.

Proponho, logo após o cordão, fazermos uma grande montanha de obras, e vamos descobrir qual será o seu destino, mostrando claramente as parcerias disfarçadas de conceitos contemporâneos de destino certo: o mercado especulativo, que prevê retorno do investimento, a bolha (ilusória) da arte.
Pelo muito que já foi divulgado na mídia e em redes sociais da internet, a 29ª Bienal será um "make-up" (influência da São Paulo Fashion Week?), uma feira com interesses de grupos que faturam no mercado de arte e artistas partícipes destes acordos "the dark side of the moon" da Bienal. "Sorry", Pink Floyd, pela lista dos "Deuses do Olimpo".
E o público? Ninguém pensou na importantíssima função socioeducativa para as massas? Nós pensamos e vamos fazer a Bienal de todos.
Compareçam com uma obra de qualquer formato ou estilo.
Vamos criar uma bienal democrática e não oficial, como nunca foi visto; vamos ativar o circuito artístico e mostrar que Bienal política tem que ser democrática.

MITOS VADIOS 2 :: ALTERNATIVA 2010
Manifestação Pacífica em nome da Democratização da Arte
21 de Setembro de 2010 às 17:00h
Parque Ibirabuera :: Portão 3 :: No calçadão em frente ao Prédio da Bienal
São Paulo - São Paulo -Brasil

terça-feira, agosto 24, 2010

"Contradição corrói as bienais de arte", diz artista Waltercio Caldas

MARCOS FLAMÍNIO PERES - FOLHA DE SÃO PAULO - em 24/08/2010
Foto: Luciana Whitaker/Folhapress


Admirador confesso de Auguste Rodin (1840-1917), Constantin Brancusi (1876-1957) e Pablo Picasso (1881-1973), Waltercio Caldas lamenta que as novas gerações de artistas brasileiros ignorem a história da disciplina --"perde-se muito com isso". O artista plástico também afirma que não consegue imaginar um mundo sem livros, mesmo vivendo na era digita

Folha - Às vésperas de mais uma Bienal de Arte de São Paulo, como vê o conceito de grandes exposições?
Waltercio Caldas - São anacrônicas, porque, embora pretendam absorver o que está acontecendo no mundo, ele está muito mais complexo do que elas são capazes de suportar.
Por não conseguirem dar conta da globalização das ideias e da vertiginosidade do tempo, tornam-se específicas. Embora o discurso seja totalizador, acabam defendendo um ponto de vista muito particular. E essa contradição corrói esse tipo de evento.

Como vê a apropriação de seu trabalho pelos artistas contemporâneos?
Hoje em dia, alguns artistas consideram que se pode fazer arte sem ter noção da história da arte, sem ter noção de todas as conquistas anteriores. E tenho a impressão de perdemos muito com essa deliberada ignorância.

Livros e palimpsestos sempre foram recorrentes em sua obra. Como vê o futuro da palavra impressa com o advento das novas tecnologias?
Não consigo imaginar o futuro da humanidade sem palavra impressa e sem papel. Os livros têm características tão especiais que nunca serão substituídas. A mídia eletrônica oferece ao espectador uma participação na velocidade do mundo, em sua vertiginosidade, enquanto o livro atende mais à ideia de contemplação.

Usa Facebook ou Twitter?
Procuro evitar... Tenho uma relação muita íntima com o tempo. Acho extremamente desagradável me relacionar com uma imagem que é filtrada por uma luz artificial que nos chega por meio de um sinal eletrônico.

Como avalia os museus brasileiros e sua formação de acervo?
É um problema que temos por puro descaso nosso. São poucos os museus que têm política de aquisição, e, quando as têm, são muitas vezes esporádicas e temporárias. Isso faz com que as instituições às vezes não tenham um acervo que possam representar sua própria história.

E como mudar isso?
Bem, para usar os perfumes como metáfora, acho que o Brasil, em arte, está começando a produzir fragrâncias muito boas, mas conhece muito pouco do processo fixador. E, no entanto, ele é fundamental.

A falta de apelo exótico de sua obra foi um problema para sua aceitação no exterior?
Não, pois acho que o mundo é suficientemente complexo para incorporar trabalhos de toda natureza.

Não acha que existe hoje uma culturalização da arte, entendida a partir de conceitos como cor, etnia etc.?
Acho, e isso de certo modo substitui os "ismos" [as vanguardas]. Por terem se tornado densos demais, cederam lugar a ordens sociológicas, psicológicas, etnológicas... Sob esse ponto de vista, meu trabalho tem um viés bastante crítico. Uma obra é exatamente aquilo que ela é, ele não quer ser a representação de nenhuma outra coisa.

Qual o artista que mais chama sua atenção na cena atual?
Gosto muito do [americano] Matthew Barney. Acho que ele tem uma pegada na questão dos materiais que é bastante inovadora.

Um crítico já definiu seu humor como machadiano. Você se reconhece nele?
Isso me lisonjeia, porque o humor de Machado --quase uma ironia-- é uma necessidade para o Brasil.

domingo, julho 18, 2010

Do Fazer ao Exibir-se

Por Ferreira Gullar,
para a Folha de SP - 18.07.2010

Ferreira Gullar foi questionado sobre o fundamento do vanguardismo nas artes plásticas. Qual fator o fez manter-se só neste campo?

POR QUE o radicalismo de vanguarda, que surgiu com o movimento "dada", por volta de 1915, atravessou o século 20 e até hoje se mantém como tendência predominante nas artes plásticas? Formulei essa pergunta há alguns anos sem conseguir respondê-la satisfatoriamente. Como se sabe, o movimento "dada", que teve como figuras principais Marcel Duchamp e Tristan Tzara -sem falar em Kurt Schwitters, Hans Arp e muitos outros-, caracterizou-se por um radicalismo que se voltava contra toda e qualquer busca de coerência ou princípios no processo de criação artística. Se é verdade que o cubismo pôs fim à linguagem pictórica que nascera no Renascimento, o dadaísmo, ao contrário dos movimentos derivados daquele, tinha por lema a liberdade sem limites e a negação de tudo o que se considerasse arte. Era a antiarte, cujo ícone maior foi o urinol que Duchamp expôs em 1917. Se, paralelamente, surgiram outros movimentos artísticos, alguns, aliás, de caráter construtivo, foi o cadaísmo, em sua expressão mais irreverente, que se impôs no curso do século 20.

Minha pergunta implicava outra questão: se os movimentos de vanguarda se manifestaram não apenas nas artes plásticas, mas também na poesia, no romance, na música, no teatro, por que só naquelas se manteve dominante até hoje, enquanto as outras artes, depois de absorverem inovações vanguardistas, retornaram, enriquecidas, a seu leito natural?
Por exemplo, a poesia dadaísta chegou, após a "Ursonate", de Schwitters, a poemas que, em lugar de palavras, usavam traços, sinais abstratos. O caso extremo do experimentalismo na literatura foi o "Finnegans Wake", de James Joyce.
Felizmente, a literatura de ficção não o tomou como exemplo a seguir, como as artes plásticas o fizeram com o urinol de Marcel Duchamp. Se isso houvesse ocorrido, não teríamos hoje as obras de Borges, Faulkner, Clarice Lispector etc. Sem exagero, a literatura ter-se-ia tornado indecifrável e ilegível.

Diante disso, questionei o fundamento desse vanguardismo que só se manteve nas artes plásticas. Qual fator o fez manter-se apenas neste campo, e não nos outros? Deduzi eu que, se fosse uma necessidade da época, teria se mantido em todas as outras artes. Esse me parecia um argumento lógico, mas não me satisfazia, mesmo porque a vanguarda, em qualquer campo que se manifestou, nascera de fatores históricos identificáveis. A pergunta permaneceu, portanto, sem resposta, até que, quase por acaso, julgo tê-la encontrado. Não pensava nesse problema, quando observei que, no passado, não havia exposições de arte, mesmo porque ainda não se inventara o quadro de cavalete: o artista pintava afrescos nos muros dos mosteiros e igrejas e, depois, nas paredes dos palácios dos nobres e das mansões dos burgueses. Como o número de paredes era limitado, foi preciso surgir o quadro de cavalete para nascer o colecionador de arte, que passou a ir ao ateliê do artista e ali comprava a tela que lhe agradasse. O artista não expunha suas obras. Só no século 19 criaram-se os salões de arte, onde passou a expor. Distribuíam-se prêmios que, por consequência, determinavam o valor das obras no incipiente mercado de arte. E aí surgiram as galerias e os marchands.

Expor obras é um fenômeno relativamente recente na história da arte. Da Vinci, Rafael, Ticiano não expunham suas obras e isso influía no resultado do que criavam. No século 20, surgiram as grandes mostras internacionais, como a Bienal de Veneza, a de São Paulo e outros certames que se tornaram o espaço onde a arte acontece: um depende do outro. Essas exposições internacionais é que garantiram a sobrevida da vanguarda, estimulando o artista a produzir obras que "aconteceriam" ali. Ele trabalha para grandes mostras e necessita impactar o espectador, ao contrário do pintor do passado, preocupado em criar obras permanentes, que dele exigiam dedicação e apuro técnico.
Creio ser essa uma das razões por que a chamada arte contemporânea não elabora uma linguagem, não requer domínio técnico, já que o artista não busca a permanência e, sim, antes de tudo, expor e expor-se. Daí o improviso: as instalações, os "happenings", as performances.