sexta-feira, outubro 22, 2010

BIENAL DO CONCEITO E POUCO CONTEÚDO

Por Leonel Mattos, Artista plástico

Visitei a 29ª. Bienal de São Paulo a convite da sua patrocinadora a PETROBRÁS, para fazer uma leitura e participar do debate. Fui com a intenção de deixar que as obras me atraíssem pela sua força de expressão. Logo na entrada, várias pinturas em grandes dimensões do artista Rodrigo Andrade que atende os interesses intrínsecos da pintura, de boa qualidade com tons escuros revelando uma cidade noturna, e com o cheiro da tinta ativo notando ser uma obra recente. Na subida da rampa a pior obra do artista CARLOS BUNGA, uma instalação com colunas quadradas de 4 metros de altura feita de papelões pintados de branco na frente e no fundo no papelão cru com fitas adesivas aparentes que serviam de emendas para o mesmo, cheguei perguntar aos monitores se aquilo ali era uma obra? Em seguida uma instalação de blocos aparentes tipo uma caixa com várias colagens e portas como um ambiente de uma casa, muito ruim também! Algumas pinturas hiper-realistas muito boas, mas sem novidades dos artistas, KIMATHI DONKOR E AMAR BUNGA.

Os desenhos de GIL VICENTE também muito bons tecnicamente, mas o tema agressivo roubou a cena e errou quando simula a morte da vida principalmente de líderes. Poderia o artista Gil ter sido mais feliz protestando pregando o amor, despertando para o positivo, invertendo os valores e não revelando sua raiva de uma forma negativa, afinal a Bienal também é visitada por crianças, que se divertiam como se tivessem no Jardim Zoológico com a instalação do Nuno Ramos. Nuno cometeu um erro levando uma vida para dentro de um espaço inadequado, retirando do seu habitat, por mais que digam com a desculpa que o animal é de cativeiro. Assim dar margem para levarem um comedor de lixo e um mendigo para dentro da Bienal e o prender por um período para representar a realidade já desumana! A obra do Nelson Leirner esta sim me tocou pela força de sua expressão, onde colocou um porco empalhado viajando em cima de uma aeronave parecendo uma asa delta feita de madeira, pendurada no ar, invertendo os valores. Já o artista Ernesto Neto, não foi feliz na montagem de sua instalação, que parecia uma cobertura de um circo onde as crianças se divertiam bem.

A melhor obra da Bienal, em minha opinião, foi a de Henrique Oliveira, uma instalação penetrável de laminas de madeira com cores e volumes, como se estivesse entrando em uma vagina ou um útero, em forma de labirinto, muito boa, percebia seus valores, tanto externo quanto interno. As obras de Leonilson e Hélio Oiticíca deveriam ser expostas em uma sala especial para se fazer homenagem a artistas falecidos de boa qualidade, coisa que está faltando na Bienal. A de Cildo Meireles já não causou nenhuma surpresa, impacto, pois já a conhecia e não alterou muito. Muito boa as colagens de papéis do artista Marcelo Silveira e suas várias fotos estavam de boa qualidade. Entendo que o TEMA causou um desafio aos artistas e na maioria não se saíram bem, já que fugiram da sua produção atual. Em minha opinião os curadores deveriam deixar o TEMA LIVRE, para mostrar a verdadeira produção dos artistas, a que vem produzindo naturalmente e escolher a melhor obra para a representação, por que assim não seriam pegos de surpresa com o resultado da obra feito pelo tema. Pois, nem todo trabalho de um artista é uma grande obra, tem aquelas que se destacam mais.

No debate da Bienal, a convidada Professora da USP Vânia Rall, pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, da USP, o tema "Arte e ética: o uso e animais nas obras de arte", perguntei a ela se era a favor dos urubus permanecerem ali, ela respondeu que também não concordava, felizmente agora retiraram de vez os urubus, é sinal que o bom senso venceu, é uma prova que os curadores não foram felizes discordando do que era óbvio mais uma vez. O convite foi estendido a um grupo de artistas e produtores e um dos curadores Pedro França, um garoto, ficou tentando explicar Conceito que não correspondia o que as obras passavam uma invenção do que é do que não pode ser! Espero que na próxima Bienal não tenha TEMA e que acerte mais não colocando curadores e artistas ao ridículo. Um painel de Pintura da artista N S HARSHA muito boa com figuras de pessoas pequenas coloridas, mas pecou quando colocou em cima da pintura interferência com tinta preta parecendo alguma fumaça no painel, pensei que era até uma pixação por cima. Por falar em pixação, ficou a desejar os trabalhos dos pichadores, ficou sem representatividade já que reproduziram em folhas de papéis o que eles fazem na cidade. Os vídeos, uma coisa repetitiva, todos apresentados em uma caixa preta parecendo das novelas das seis, das sete e das oito, todos parecidos, não se conseguia identificar o autor. É isso aí, não se tem muita coisa para falar, muito trabalho que não diz nada, parecendo dever escolar. Obras com pouca representatividade que uma Bienal merece, espero que na próxima acertem e mostrem a verdadeira produção e seus artistas, por que esta ficou a desejar!

terça-feira, setembro 21, 2010

MITOS VADIOS 2 :: CARPE DIEM :: SEIZE THE DAY

H O J E
21/09/2010 A PARTIR DAS 17H
CALÇADÃO E GRAMADO PÚBLICOS EM VOLTA DA BIENAL.
A BIENAL É NOSSA, DO POVO. O VERDADEIRO ESPÍRITO DAS ARTES ESTARÁ DO LADO DE FORA :: HOJE, A PARTIR DAS 17:00H.

sábado, setembro 18, 2010

A ARTE VAI PARA UM LADO E O MERCADO VAI PARA O OUTRO

Por Leonel Mattos (BA) - Artista plástico e curador
http://leonelmattos.blogspot.com

Quando mudei para São Paulo na década de 80, fui à procura de um polo mais ativo culturamente, onde as coisas acontecessem. Na época não tinha a net e a única opção era nos deslocarmos. E em SAMPA as coisas realmente aconteciam, meu trabalho logo ganhou outra dimensão. Quando percebi que as "panelas" de interesses mercadológicos existiam, resolvi voltar para a Bahia, cuidar da minha obra e da minha raiz pois o meu interesse era outro, era discutir os interesses da arte! Tínhamos críticos sérios naquela época, posso citar vários, como Olivio Tavares de Araujo, Olney Cruse, Federico de Morais, Ferreira Gullar, Theon Spanudes, Mario Shemberg e muitos outros, voltados para a chamada Arte Brasileira, artistas que tinham singularidades e pluralidades em suas obras! A partir daí começaram a surgir críticos que olhavam mais para o que estava sendo produzido na Europa, e começaram a selecionar e influenciar em Salões Oficiais, artistas que tinham esta tendência, e se perdeu a nossa identidade, a arte ficou como "dever" escolar! Chegaram até a dizer que o Iberé Camargo era o pai do expressionismo brasileiro! As galerias por sua vez, fechadas para os novos artistas, abriam excessão apenas para aqueles que se destacavam em Salões ou eram indicados por algum crítico, sempre buscando os interesses financeiros. E assim ajudaram a chegar onde nos chegamos, a um esmagamento cultural!

Vou participar da MANIFESTAÇÃO MITOS VADIOS II por acreditar nos interesses do artista e sua produção! Por esse mesmo motivo, provoquei na FEIRA DE SÃO JOAQUIM-BAHIA, uma mostra coletiva onde a arte se destacou por sí só, em meio a verduras e uma infinidade de informações, assumindo o seu papel. Entendo que um objeto qualquer estando no seu espaço especifico como o Museu ou a Galeria, já ganha 70% de status de arte, tornando-se duvidoso.
É preciso abrir mais espaços alternativos para mostrar realmente a produção do Brasil, talvez uma Bienal de Brasileiros, mas com interesses na produção, diferenciando do que é dever escolar e isento de alguns ratos de porão!

segunda-feira, setembro 13, 2010

Morre em São Paulo o artista plástico Wesley Duke Lee

Veja - 13.09.2010

Morre em SP o Artista Plástico Weslei Duke Lee
Lee causou frisson nos anos 1960 e 1970 com seus happenings e fundou a galeria Rex

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Wesley Duke Lee diante de quadros de sua coleção particular e ao lado do gato Tik, em sua casa em Santo Amaro.

Wesley Duke Lee diante de quadros de sua coleção particular e ao lado do gato Tik, em sua casa em Santo Amaro. (Fernando Moraes/Dedoc)

Morreu ontem o pintor brasileiro Wesley Duke Lee, aos 78 anos, em São Paulo. Lee ficou conhecido nos anos 1960 por promover os primeiros happenings no Brasil, performances que reuniam vários intelectuais, jornalistas e boêmios com exibição de vídeos, mostras de fotografias e telas, além de lançamentos de livros e poemas.

Neto de americanos, Duke Lee cursou desenho livre no MASP, o Museu de Arte de São Paulo, em 1951, e depois na Parson’s School of Design e no American Institute of Graphic Arts, duas conceituadas escolas de arte dos Estados Unidos, em 1952. Ele foi um dos pioneiros da Pop Art no Brasil, além de ter realizado trabalhos como o fotógrafo Otto Stupakoff e os artistas Bernardo Cid e Pedro Manuel Gismondi. Viveu na Áustria e na França antes de retornar a São Paulo.

Duke Lee foi um dos fundadores do movimento Realismo Mágico, inspirado na Semana de Arte Moderna de 1922, e do movimento Rex, que incluía uma galeria de arte de mesmo nome e um jornal chamado Rex Time, sobre artes plásticas. Provocador, se ofereceu como voluntário para testes de LSD numa clínica em 1964. A aventura rendeu uma série de telas com reflexões políticas.

Ele, que sofria há três anos do mal de Alzheimer, morreu de parada cardíaca. Os direitos de sua obra estão sob a guarda de sua sobrinha Patrícia Lee e o acervo sob tutela dos marchands Ricardo Camargo, em São Paulo, e Max Perlingeiro, no Rio de Janeiro. Uma cerimônia aberta ao público de despedida será realizada no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, às 16h desta terça-feira (14).

Confira aqui uma galeria de imagens do artista e de seus trabalhos

domingo, setembro 12, 2010

Uma Bienal não pode optar por arte "best seller'. Isso não existe.

Por Evany Fanzeres - Artista Plástica

Mercadológico: você tem razão. É a palavra. E isso envolve uma premissa ética: o circuito cultural (ou institucional) não é o mesmo que o circuito de mercado. Nesta área todo cuidado é pouco. Não sou contra o mercado de arte, até pelo contrário. Porém uma Bienal não pode optar por arte "best seller'. Isso não existe.

Mas aqui o Ministério da Cultura "apoiou" a presença de obras de brasileiros em feiras de arte promovidas por galerias comerciais! E com direito a diplomatinhas "cultos" a defenderem seus protegés. Isso foi uma grande gaffe, e oficial! Tristeza. E que revela a total falta de tudo que assola este país, principalmente falta de informação, e empenho em acompanhar certas mudanças havidas no fim da década de 60 e anos 70. A Obra Aberta, de Eco, assim como textos de Barthes, Francastel, Lacan, e outros autores de resultados de investigação de linguagens, sobretudo artísticas foram publicados, Aconteceram congressos internacionais de CRÍTICA de ARTE, com importantes resoluções éticas. Aí a mercadologia reagiu, combatendo a crítica, e introduzindo nos circuitos os "curadores". Mas não dentro daquele conceito de curadoria que havia antes, com um Clarival, ou Mario Barata, Mário Pedrosa ou Harald Szeemann, e sim como forma de manipulação da produção artística. Contudo, mostras importantes como a Veneza e Kassel se aguentaram bem, porque , de certa forma, puderam entender, acompanhar as mudanças, e sobretudo contornar o caráter coercitivo das mesmas. Kassel, Veneza e outras mostras inbternacionais puderam contornar uma situação de origem política, sobretudo por haver uma ATITUDE com relação à arte. Basicamente é uma atitude de respeito e consciência. Porém aqui não conseguimos, porque a Bienal também não propôs uma posição.

A nossa Bienal teve chance de entrar na contemporaneidade há exatamente 39 anos. Mas não o fez, claro, senão não estaríamos diante de uma manifestação tão pouco séria, verdadeira falta de respeito para com a arte e com o público. Sei que excelentes colegas estão a participar, com suas propostas, mas o problema é o "como", e o conceito nulo desta bienal. Uma verdadeira salada. É tudo jogado ao público sem qualquer ordenação. Não conseguiram extrair um critério. Os críticos participantes são bons, mas desconhecem a produção artística existente.

A desculpa para o fracasso não é a exiguidade das verbas. Mas sim a ausência de percepção com relação a fenômenologia da arte. Curadores não buscam informação sobre a produção geral, ou o "what´s going on" na arte e portanto no psico-social da sociedade num sentido amplo. Nada sabem. Olham mas não vêem. São inteiramente diferentes daqueles críticos que apareciam em nossos atelieres para ver o que estávamos a produzir, frequentavam nossas reuniões, davam palestras. Amigáveis e humildes, eram super respeitados, e totalmente diferentes dos atuais curadores, muito ciosos por "aparecer" e aproveitar a Lei Rouanet. Títulos acadêmicos plurais não lhes reporta uma percepção do fenômeno artístico. Isto porque existe uma total incapacidade de leitura dos textos propostos nas propostas dos artistas.

Arte é linguagem que informa. Existem signos nas obras, desde a escolha do material de expressão como suporte da ideia, até a técnica e a forma plástica. Todos conhecemos a pintura O GRITO de Edward Munch. Ela nos reporta o que estava acontecendo. A meu modesto ver, a única Bienal de São Paulo que apresentou alguma intenção de unidade conceitual, foi aquela do Alfons Hug. Ele fez um trabalho muito limitado a uma visão (dele) de "sabio" naturalista do século XIX diante do trópico.Foi uma bienal muito fraca, porém honesta, dando recado (dele).