quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Anunciado curador da 30.ª edição da mostra brasileira de arte, em 2012, o venezuelano Luis Pérez-Oramas detalha seu projeto

Por Camila Molina - Estadão, 15.2.11

BIENAL DOS LATINOS

O Retorno das Poéticas é o título do projeto do venezuelano Luis Pérez-Oramas para a 30.ª Bienal de São Paulo, que ocorrerá em 2012. Definido pela instituição como o curador-geral da próxima edição da mostra, Oramas sai a partir de abril de licença temporária do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), onde é curador de arte latino-americana, para se dedicar ao desenvolvimento da exposição brasileira. "Discute-se muito sobre o esgotamento do modelo Bienal, mas acho que com a de São Paulo é o contrário, porque ela tem uma história própria e um vínculo orgânico com a cidade", diz Oramas ao Estado, em entrevista por telefone.

Potencializar, como afirma o venezuelano, a relação entre o local e o internacional, com força na arte latino-americana, que vive seu "momento de ouro", vai ser o desafio de seu projeto para a 30.ª Bienal de São Paulo, programada para ser inaugurada em setembro do próximo ano no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera. "Todas as ideias globais começam sendo ideias locais", continua Oramas. "A 30.ª Bienal será de revelação de artistas da América Latina que não foram suficientemente reconhecidos, sejam os de metade de carreira ou jovens", diz.

Colocar um estrangeiro com o estofo de Luis Pérez-Oramas à frente da próxima edição do evento vai ao encontro da política de internacionalização engendrada pela atual direção da Fundação Bienal de São Paulo. Mais ainda, não é de agora a relação do curador, que vive em Nova York, com o Brasil. Nascido em Caracas, em 1960, em 1998, ele fez a curadoria de mostra do pintor venezuelano Armando Reverón (1889-1954) na 24.ª Bienal de São Paulo; em 2007, foi cocurador da 6.ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre; e recentemente foi o responsável pela exposição O Alfabeto Enfurecido, com obras da suíço-brasileira Mira Schendel e do argentino León Ferrari e que entre 2009 e 2010 foi exibida no MoMA, no Museu Reina Sofia (Madri) e na Fundação Iberê Camargo. Ainda, o trabalho de Oramas - que também já foi curador da Coleção Patricia Phelps de Cisneros - no museu de Nova York tornou-se fundamental para a entrada de obras de artistas brasileiros para o acervo da instituição norte-americana, uma das mais importantes do mundo.

Campos. Desde outubro a Fundação Bienal de São Paulo veio realizando o processo de seleção do curador-geral da 30.ª mostra, iniciado com a sugestão de um primeiro time de 20 candidatos. Ao chegar ao filtro de 3 nomes, a instituição pediu, em novembro, que fizessem projetos para avaliação. O de Luis Pérez-Oramas, escolhido pela diretoria da Bienal, já tem seu orçamento em torno de R$ 25 milhões, como afirma o presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Heitor Martins. Também estão previstas itinerâncias da 30.ª mostra em 2013. Oramas ainda indicará a representação brasileira na 55.ª Bienal de Veneza.

Definindo ainda O Retorno das Poéticas, o curador, que escolheu como cocuradores o alemão Tobi Maier e o artista gaúcho André Severo, cita que a próxima edição vai ser uma exposição balanceada entre "o excesso e o escasso" - no ano passado, a 29.ª Bienal exibiu 850 obras de 159 artistas - e com número considerável de obras criadas especialmente para o evento. "Uma Bienal de articulações e não de individualidades", completa Oramas. Sua meta é anunciar a lista de artistas até setembro deste ano.

O curador indica quatro "zonas" importantes de seu projeto, como a questão da memória; o tema de "como as poéticas alternam formas conhecidas"; as derivas na arte contemporânea; e as "vozes" - das obras e do público de arte.

Nesse sentido, a 30.ª Bienal não vai se restringir à mostra no prédio da instituição, mas contemplar o que o curador chama de "campos expandidos", ou seja, atividades que envolvam internet, rádio, comunidades locais, museus e instituições e o projeto educativo, que mais uma vez será coordenado pela artista e educadora Stela Barbieri.

Números

25 milhões de reais é o orçamento prévio da 30ª Bienal de São Paulo, programada para ser inaugurada em setembro de 2012

700 mil reais é o montante usado para a representação nacional brasileira este ano na 54ª Bienal de Veneza, que terá uma instalação de Artur Barrio, artista português radicado no Brasil

12 a 15 itinerâncias da 30ª Bienal pelo Brasil, em 2013, já integram o projeto selecionado

ELE E O BRASIL...



No mesmo pavilhão

Em 1998, Oramas realizou a curadoria de mostra do pintor venezuelano Armando Reverón(1889-1954) para o núcleo histórico da 24ª Bienal de São Paulo, considerada um marco.

Alfabeto Enfurecido
Luis Pérez-Oramas foi também responsável pela mostra com obras da artista suíço-brasileira Mira Schendel (1919-1988) e do argentino León Ferrari, nascido em 1920.



quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Música: patrimônio imaterial do Brasil :: Por Rita Alves

Por Rita de Cássia Alves - Revista Lusofonia

A música se insere num contexto único, pois faz parte da cultura de um povo, ultrapassa os limites do concreto, e se funda como legitimação de uma maneira de expressão que ganha caráter de tradição e se contextualiza em sua época, registra subjetivamente a organização social e cultural de um determinado povo, de um determinado grupo.

A Música Popular Brasileira, nas suas mais diversas representações, proporciona para as atuais e futuras gerações o acesso a expressão, ao rosto, a feição de quem fez e faz a fusão cultural brasileira, uma das mais expressivas expressões musicais do planeta e, sem dúvida, o carro-chefe de nossa cultura, a mais abrangente e popular forma de expressão do povo brasileiro, patrimônio imaterial de nossa formação cultural.

Mais que em qualquer outra expressão cultural, é na música que podemos vivenciar a presença das diversas vertentes étnicas que forma nosso Brasil. Em especial, ao escrever para este site, que conjumina países de língua portuguesa, mais propriamente formadores de nossa gente, de nosso povo – lembrando Darcy Ribeiro – é prudente lembrar que em cada um dos diversos ritmos podemos fazer uma pesquisa de origem dos sons, das pessoas que se agregam em torno de determinados gêneros.

O impressionante é que, sabidamente, a língua portuguesa não tem uma estrutura e nem sonoridade acessível aos alheios e estranhos a ela, mas em oposição extrema está a capacidade de a música brasileira adentrar aos mais diversos nichos culturais, em quaisquer continentes, num testemunho de que a melodia, o ritmo, em comunhão com as palavras da nossa língua, exercem um poder soberano de sedução aos ouvidos, numa quase inexplicável harmonia que nos dá a graça de ter tanto grandes mestres clássicos, como Heitor Villa Lobos ou Carlos Gomes tanto quanto o samba em sua maior expressão: o carnaval.

Mesmo dentro destes gêneros aparentemente inconciliáveis, é possível perceber a preocupação do mestre Villa Lobos em recolher as mais simples expressões populares, sons que remetem às origens culturais, às produções de saberes locais, valorizando tradições caipiras, regionais, ao mesmo tempo em que busca romper com padrões limitadores da criação.

Assim também nos surpreende a criação dos grandes mestres do samba: Angenor de Oliveira, o ícone Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, poetas conhecedores da nossa língua – instintivamente alguns, outros estudiosos cuidadosos da estrutura lingüística que rege a nossa língua pátria, como Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda.

A nossa constituição federal, em seu artigo 216 define muito bem o significado deste patrimônio nacional : Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”(…)”

Assim, torna-se possível não apenas deleitar-se com a expressão maior de nossa cultura, mas gerar cultura através dela, identificando-a como um patrimônio a ser preservado.

A constituição atribui ao poder público a responsabilidade de promover, proteger e conservar o patrimônio cultural brasileiro, em seu parágrafo 1º, artigo 216: “O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.”

Por isso enumerar aqui ritmos e etnias que compõe a nossa música é tarefa de árduo labor, fruto de pesquisas de homens idealistas, musicólogos, antropólogos, historiadores incansáveis que têm recolhido, tal qual o professor doutor Edilson de Lima, partituras das nossas Modinhas, cantigas do século XVII, XVII, para que não se perca parte importante de nossa formação musical, a música barroca; ou então Ricardo Cravo Albim, que recolhe em seu instituto fantástico acervo das diversas expressões, ou ainda Mário Luiz Thompson, fotógrafo que dedicou toda a sua vida a registrar a imagem visual da nossa música.

Pudera, música que tem em sua lista tantos virtuoses como Dorival Caymmi, Tom Jobim, Chiquinha Gonzaga, Altamiro Carrilho (a lista seria interminável) precisará ter espaços e suportes para gerir um patrimônio desta magnitude.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Zangões em Fúria :: Por Adriano de Aquino

Por: Adriano de Aquino
Hiperblog, 11.1.11

Sabe aquela revolução sonhada? Aquele desejo íntimo de virar o mundo de pernas pro ar? Aquela fúria contida de gritar pra toda gente sua visão de mundo como uma nova percepção, fundada numa metódica instalação do caos, que você tão bem sabe organizar. E aquela "idéia genial" que você teve na adolescência? Vai abandoná-la? Não faça isso! Reelabore a inspiração que tanto te mobilizou. Reveja os inúmeros recortes de antropologia cultural que te entusiasmaram na universidade e que resultou em muitos estudos para obras que um dia sonhou realizar.

O que você está esperando?
A hora é essa! Libere-se!Vai fundo!
As instituições públicas e privadas de arte e cultura evoluíram muito. Hoje, tudo é aceito e nada mais obstrui as ações estéticas de ponta. Nunca na historia da cultura, tirante, é claro, períodos totalitários, a arte, as instituições oficiais, a economia e o mercado resultaram em almagama tão consistente. Portanto, meu caro, não se faça de vitima da prosperidade. Ninguém escutará suas lamúrias! Mexa-se, corra atrás, procure amanhã mesmo um bom produtor, um divulgador, um agente de marketing. Sistematize seu projeto, se associe a um curador, invista nos contatos com os negociantes de arte, faça tudo que for possível, não importa o que, mas, faça alguma coisa.
Lembre-se: aprimore sua atuação na política acadêmica, produza teses, some títulos vetustos, inclua na apresentação de sua obra, citações fundamentais da arte. Cite, cite muitos nomes da vanguarda histórica, da escola de Frankfurt, de filósofos incompreendidos, mas, muito estimados, dos mitos e signos da rebeldia estética do modernismo, do pós modernismo e tudo mais que te pareça revolucionário, inquieto e transformador.
Se toque, tudo está ao alcance da mão. Ou melhor, ao alcance da oficialidade cultural, da consciência mediana e, claro, da economia.
A escalada das vanguardas contemporâneas ao topo do sistema de arte é um fato incontestável. Se inteire e participe desse avanço!
A predominância de grupos de artistas contemporâneos nas agendas curatoriais e institucionais é um marco da enternecedora conivência entre arte e sociedade. Essa maravilhosa circunstância decretou o fim dos confrontos entre liberdade criativa e preceitos coercivos de intermediação social. Não cace pêlo em ovo! Nem se abata com críticas rigorosas e bem fundamentadas contra sua obra, as despreze, pois, são apenas reações rancorosas dos conservadores.
Abandone qualquer intenção de buscar significado e beleza, esses quesitos são irrelevantes para um trabalho que objetiva expor com clareza, sem hipocrisia, a carne crua, as fezes e os berros da fauna oprimida e as entranhas da verdade e da vida.
Aproveite! O caminho está aberto, só te resta explorá-lo.
Observe atentamente os movimentos sociais de ponta, fundados nas premissas do multiculturalismo, da diversidade, da pluralidade, da multiplicidade, da heterogeneidade e variedade, na comunhão dos contrários, na intersecção de diferenças ou ainda, na tolerância mútua. Se as premissas supracitadas não podem ser aferidas na sua totalidade porque, de fato, não se concretizam horizontalmente no ambiente social como um todo, na arte, de um tempo para cá, se tornaram ocorrências sistemáticas.
Acorde, olhe em torno, veja o que seus colegas estão produzindo, siga o fluxo, elabore uma tática, copie e cole os fundamentos teóricos das lutas sociais de ponta e introjete, no fundo da sua alma, as teorias estéticas em voga. Salpique, aqui e ali, retalhos de antropologia cultural e fragmentos autobiográficos. Trace com precisão sua estratégia, arme sua rede de relacionamentos, porém, nunca se esqueça de demonstrar uma atitude contestadora. Sempre que tiver oportunidade critique com dureza todo sistema social, de dicas sobre os temas na pauta da grande imprensa, não faça silêncio, manifeste sempre uma opinião quando solicitado, seja sobre os avanços da física quântica ou educação fundamental. Aproveite qualquer oportunidade para afirmar, peremptoriamente, que sem educação o povo não terá acesso a uma cultura artística transformadora, aliás, a cultura alguma, nem mesmo a que ele próprio produz,vibra e se encanta.
A fúria, meu caro, desconhece limites!

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Sante Scaldaferri conta sua trajetória nas artes plásticas

Terra Magazine, 31.12.2010

Faz-se necessário dizer, diante de tantas incompreensões de leigos sobre o meu trabalho, que este meu texto é, exclusivamente, para esclarecer esta fase de minha obra. Desejo prestar a minha homenagem aos que, na cidade do Salvador, nele acreditou. A eles dedico este texto.

Será necessário um ligeiro retrospecto. Na década de trinta dominavam em Salvador os artistas acadêmicos, na maioria, professores da Escola de Belas Artes. Alguns, os mais conhecidos e importantes na época, foram estudar em Paris e na Itália. No retorno, diziam-se impressionistas, que foi uma linguagem revolucionária surgida na segunda metade do século XIX. Nos anos trinta do século XX, já existiam os Nabis, os Fauves, o Abstracionismo, o Cubismo, o Expressionismo, o Futurismo, o movimento Dada, o Surrealismo, para somente citar algumas das novas linguagens que não foram por eles absorvidas.

Em fevereiro de 1922, acontece em São Paulo a Semana da Arte Moderna, movimento liderado por Oswald de Andrade, levado a cena no Teatro Municipal de São Paulo, onde a cada dia um artista apresentava sua tendência de cultura e arte. O movimento nasceu exclusivamente para exaltar culturalmente a cidade de São Paulo, apesar de participarem deles artistas nordestinos e cariocas, como Vicente do Rego Monteiro e Di Cavalcanti. Um pouco mais tarde em Recife, Cícero Dias assume o Surrealismo. Porém, a meu ver, este movimento assume uma característica muito importante para a arte e a cultura brasileira, devido à abrangência que tomou em todo o país.

O movimento começou e foi tomando corpo devido a que vários de seus artistas participantes estudavam na Europa ou muito para lá viajavam. Isso facilitou verificarem o grande movimento renovador das artes no princípio do século XX e absorverem as várias linguagens. O mais importante é que a temática usada na absorção das linguagens era transfigurada e tinha forte conotação nacionalista. Não foram simples imitadores.

O movimento começou a decair quando no Brasil começou a penetrar a arte abstrata. Mas em compensação, e ainda na década de 20, começaram a surgir os literatos nordestinos e logo após os pintores tentando obter uma identidade nacional para a nossa arte. Em 1932, volta de Paris o pintor baiano José Tertuliano Guimarães. Ele, apesar de não absorver nenhuma das novas linguagens contemporâneas da época, conseguiu compreender a pintura de Cézanne que muito o influenciou e, com isso, foi o primeiro a dar um passo adiante do que aqui era chamado de impressionismo. José Guimarães também inovou realizando pela primeira vez trabalhos recriados sobre a cultura afro-baiana, que ilustraram o número 4 da Revista SEIVA, de maio de 1939, todo ele dedicado ao negro. Esta diferença, e o rompimento com os procedimentos anteriores, lhe conferem a maior importância nas artes plásticas baianas. Assim ele se torna o primeiro artista a começar a diminuir a defasagem entre a arte anacrônica praticada na Bahia e as novas linguagens.

O modernismo começou a surgir em Salvador no meio da década de quarenta com a primeira geração de artistas plásticos modernos da Bahia. Portanto vinte anos depois da Semana de Arte Moderna de 22, que também começou com vinte anos de atraso. Enquanto tudo isso acontecia, pouco ou nada sabíamos do que acontecia na arte contemporânea da época. Daí a importância dos meios de comunicação, principalmente os jornais e revistas que começavam a publicar reportagens, textos de críticos de arte, e a divulgarem as novas linguagens. Atualmente, e infelizmente, na maioria dos jornais brasileiros, foram eliminadas as colunas de crítica de arte.

Na década de cinqüenta, a Escola de Belas Artes, fundada em 1877, seguia os padrões da Escola de Belas Artes de Paris. O que se ensinava a partir do modelo clássico eram as técnicas e as cadeiras teóricas de arte. Os professores falavam que a escola não fazia artistas. O que eu acho inteiramente certo. Somente quem tem talento, quem recebe o carisma dado pelo Divino Espírito Santo, consegue, com o aprendizado das técnicas, expressar o que vai na sua mente e em sua alma - naturalmente com muito estudo teórico e atualização nas linguagens contemporâneas. Com a posse destes elementos, pode-se conseguir ser um artista. Agora, o reconhecimento de um bom artista atualizado é trabalho da crítica de arte.

O contato com estudantes de arte de outros estados, em congressos e no que naquele tempo se chamava "embaixadas", o começo da introdução da arte moderna na cidade, realizada por artistas de fora da escola, a entrada da EBA na Universidade Federal da Bahia, a realização de concursos para professores foram, entre outros, fatores que contribuíram para a introdução, não tranqüila, da arte moderna na escola. Pessoalmente, além destes fatores, o que me influenciou a seguir a temática da arte e cultura popular do Nordeste transfigurada e adotando uma linguagem contemporânea foi a cadeira de Estudos Brasileiros, a leitura sobre os movimentos messiânicos e de autores brasileiros com esta temática.

Formei-me em Pintura pela nossa Escola de Belas Artes em 1957, quando começava o surgimento da segunda geração de artistas plásticos modernos da Bahia. Apesar da ruptura da primeira, a posterior encontrou ainda muitas dificuldades. No ano anterior já havia conhecido, e participava de atividades artísticas e culturais juntamente com Alberico Motta, Ângelo Roberto Mascarenhas de Andrade, Carlos Anísio Melhor, Florisvaldo Mattos, Fernando da Rocha Peres, Fernando Rocha, Frederico José de Souza Castro, Glauber de Andrade Rocha, José Julio de Calasans Neto, José Turisco, José da Silva Dultra, João Carlos Teixeira Gomes, João Eurico Matta, Julia Conceição Fonseca Santos, Lina Gadelha, Nemessio Salles e Paulo Gil de Andrade Soares, componentes da hoje chamada "Geração MAPA".

Estes jovens de então deram uma grande contribuição para a implantação da arte moderna na Bahia em todas as linguagens artísticas, e os remanescentes continuam atualizados e produzindo até hoje. Eles tiveram a fortuna de participar do maior e mais fecundo período cultural da Bahia durante o reitorado do Dr. Edgard Santos.

Como disse, desde 1957, influenciado por uma cadeira, hoje extinta, chamada "Estudos Brasileiros", comecei a elaborar o conteúdo da minha pintura. Esta cadeira dava uma visão geral do Brasil, não com profundidade, mas abrangendo todos os campos de nossa cultura. O catedrático era o psiquiatra e poeta Hélio Simões. Ele dava a aula inicial e poucas outras, mas durante todo o ano letivo as aulas eram proferidas por Carlos Eduardo da Rocha e Cid Teixeira. Pertencente a esta cadeira e em anexo, havia um pequeno museu onde constavam alguns objetos de artesanato do Nordeste, de antropologia, de etnologia, fotografias, santos barrocos, urnas funerárias indígenas, arcos, flechas, objetos em fibra, objetos de cerâmica e uma coleção de ex-votos. Daí surgiu a minha paixão.

Só para dar um exemplo da riqueza do Nordeste, o Brasil possui cinco regiões geográficas com três trajes típicos nacionais, o Vaqueiro, a Baiana e o Gaúcho. Afortunadamente a Bahia possui dois deles.

Talvez possa falar um pouco e, resumidamente, do reitorado do Dr. Edgard Santos, simplesmente por tê-lo vivido. Foi certamente o grande momento da arte e da cultura na Bahia. Foi um período de grande efervescência cultural e uma referência da Bahia na cultura brasileira e também internacional. Tenho que avisar não ser um saudosista, caso contrário não estaria fazendo arte digital, produzindo INFORGRAVURAS. Porém tenho saudades. Existe uma grande diferença em ter saudades e em ser saudosista. Mas para se ter uma compreensão do que ocorreu, primeiramente acho que devo falar da infra-estrutura que foi implantada no âmbito da Universidade Federal da Bahia e também do Governo do Estado da Bahia, com o Teatro Castro Alves e o Museu de Arte Moderna.

O projeto inicial do teatro foi do arquiteto Alcides da Rocha Miranda, um dos maiores arquitetos brasileiros, e compunha-se de dois blocos e um "foyer". Um dos blocos destinava-se ao ensino do teatro e o outro a representações teatrais. O argumento em favor da mudança para um novo projeto foi que o primeiro era muito complexo e a sua construção iria demorar muito. O atual é de autoria do arquiteto José Bina Fonyat e do engenheiro Umberto Lemos Lopes, que aproveitaram somente o "foyer" que já estava construído.

Vítima de um incêndio no fim do governo Antônio Balbino, o pagamento do seguro foi suficiente apenas para reconstrução da estrutura, ficando assim o TCA carente de equipamentos para o seu funcionamento.

Neste espaço começou a funcionar provisoriamente, no Governo Juracy Magalhães, o Museu de Arte Moderna da Bahia, que deveria possuir posteriormente uma sede própria. Após a conclusão da Avenida de Contorno e a restauração do Solar do Unhão, o MAM se muda para lá, também provisoriamente, porque naquele espaço deveria ser implantado o Museu de Arte Popular.

O MAM prestou um grande serviço às artes plásticas baianas. Começou mostrando os artistas abstratos, completamente desconhecidos em Salvador. Depois realizou exposições de grandes artistas nacionais e internacionais, exposições didáticas, a apresentação dos grandes artistas que haviam sido expostos na Bienal de São Paulo e um grande programa votado para os jovens artistas. No seu amplo palco foi construída uma arquibancada e levadas a cena pelos alunos da Escola de Teatro peças memoráveis como "A ópera dos três tostões" de Bertolt Brecht com música de Kurt Weill, tocada na época por um conjunto dos Seminários de Música, e "Calígula" de Albert Camus.

Foram inauguradas as Escolas de Teatro, Dança e os Seminários de Música, que mais tarde se transformariam na Escola de Música, e houve a inclusão da Escola de Belas Artes na Universidade Federal da Bahia.

O fantástico era a integração entre estas escolas, que sempre realizavam projetos em conjunto. Formou-se uma excelente orquestra onde foram incluídos músicos estrangeiros, e os concertos eram na Reitoria. Foi apresentado ao público o que havia de mais atual na música internacional, como aulas teóricas sobre o Dodecafonismo e concertos dodecafônicos, principalmente dos compositores Theodor Adorno e Arnold Schömberg e concertos clássicos. Ao mesmo tempo eram dadas aulas para jovens instrumentistas que afluíam de todo o país. A orquestra da Universidade Federal da Bahia apresentou pela primeira vez, e completa, "Carmina Burana", canções e poemas medievais musicados por Carl Orff. E também apresentou pela primeira vez mundialmente o "Octeto de Metais" de Paul Himdemith.

A Escola de Teatro recebeu inúmeros professores e artistas que trabalhavam ao lado dos jovens atores para lhes transmitir a experiência. Na escola, além da leitura de peças havia todas as cadeiras inerentes à formação profissional. Lecionou uma professora, cantora lírica, que ensinava a impostar a voz - o ator em cena projetava a voz, não gritava. Além de grandes encenações de peças clássicas e fundamentais para o ensino, dava-se muita importância aos autores brasileiros que iniciaram o nosso teatro. A Escola de Teatro obteve por doação, se não me engano da Ford Foundation, o primeiro ciclorama do Brasil. Um grande avanço na época devido a sua nova tecnologia.

Por sua vez a Escola de Dança mostrou a dança moderna, também por nós desconhecida naquela época. Todos esses movimentos eram para a formação de jovens artistas e a nossa geração, hoje chamada de "Geração MAPA", foi muito prestigiada em seus projetos e praticamente todos começaram aí sua vida profissional em suas respectivas áreas. Não falei dos nomes de nenhum artista ou professor, para evitar os costumeiros esquecimentos e procurei resumir ao que pude.

Durante o período escolar, já participava de salões e pintava ao ar livre. No final de meu curso, fui o primeiro aluno a fazer uma exposição individual na Escola de Belas Artes, mostrando todos os meus trabalhos escolares e os realizados fora da Escola. No ano seguinte expus na Galeria Domus. Em 1959, outra exposição na Pequena Galeria da Biblioteca Pública, e, em 1960, no Diretório Acadêmico da EBA. Neste mesmo ano, Mario Cravo, eu e Calasans Neto fizemos uma exposição na Galeria Macunaíma, no Rio. Então não parei mais. Graças a Deus, com saúde, aos 82 anos, continuo trabalho diariamente.

Sobre Cultura e Arte Popular Brasileira - Por Sante Scaldaferri

Por Sante Scaldaferri (Salvador, BA 1928 - Pintor, gravador, tapeceiro, ator, cenógrafo, professor)

Se queres ser universal, comece por pintar a sua aldeia. Leão Tolstoi (1828-1910)

É muito importante a preservação das manifestações espontâneas da nossa cultura popular. Principalmente as do Nordeste, de uma riqueza imensa. Todas as manifestações populares do povo do Nordeste, como artesanato, arte e cultura, messianismo, religiosidade, as represento através da apropriação do ex-voto, que, no meu trabalho, é um signo/símbolo para expressar toda esta riqueza, todo o meu pensamento e todo o meu sentimento. Desde o início da minha carreira que penso assim. O surgimento da obra de arte na minha pintura é decorrente da transfiguração de uma temática abrangente da cultura e arte do Nordeste brasileiro, associada a uma linguagem contemporânea internacional vigente na época. A forma muda conforme aparecem novas linguagens, mas o conteúdo permanece o mesmo. É uma busca incessante por uma identidade cultural brasileira. Isto acontece até hoje, sempre coerente com o meu pensamento, sem fazer qualquer tipo de concessão.

As nações desenvolvidas que possuem uma grande tradição de cultura e arte, a começar pelos clássicos Gregos e Romanos, sempre mudaram, ao correr dos tempos, a forma de suas criações artísticas. Surge, assim, o que hoje chamamos de linguagens contemporâneas. Estas linguagens, que surgiram não importa o país de origem, levavam muito tempo para serem adotadas internacionalmente.

Hoje, devido aos meios de comunicação cada vez mais eficientes, elas chegam com muita rapidez, são adotadas e se extinguem também muito depressa, dando lugar ao aparecimento de outras novas. No mundo globalizado, cada nação valoriza sua cultura, sua arte popular e sua arte erudita, sem haver, entretanto, nenhuma supremacia entre elas. Mas o que é representativo no mundo da arte internacional é a arte erudita. No meu trabalho, dentro da fase antropomórfica, usei a linguagem pop acoplando ex-votos originais aos suportes das pinturas. Alguns destes trabalhos fizeram parte da Representação Brasileira à 21ª Bienal Internacional de São Paulo. Anteriormente já havia participado mais duas vezes desta importante Bienal.

No Brasil, todas as linguagens contemporâneas estão em evidência, com nossos artistas expondo inclusive no exterior. Valorizar uma em detrimento da outra, seja por qualquer motivo, inclusive político, é um equívoco. Não respeitar e excluir os artistas que no passado remoto ou recente deram ou continuam dando uma grande contribuição à arte e cultura local, com certeza, é uma atitude intolerável de censura. É uma atitude inconcebível numa democracia. Entretanto é passageira, porque ela não destrói a obra, apenas a ignora. Por isso sempre digo e repito: o importante em qualquer artista é a sua obra. Se a obra foi elaborada dentro de uma linguagem contemporânea da época, com certeza ela já está na História, e permanecerá, mesmo que seja de um artista erudito, popular ou mesmo um artesão. Um bom exemplo é o pintor "naif" ou "primitivo" francês Henri Rousseau, chamado Le Doanier, por ser inspetor de alfândega. Podemos citar alguns pintores primitivos brasileiros que já estão na nossa história, como Heitor dos Prazeres, José Antonio da Silva, Cardoso e Silva, Silvia Leon Chalreo, Aurelino, João Alves, Manezinho Araújo e muitos outros. O que prevalece nos artistas eruditos, e nos primitivos, é que eles possuem uma obra. O que é mais importante em um artista é a sua obra. Esta é o que fica.

Foram os ditadores nazistas, fascistas e comunistas que tentaram destruir a arte contemporânea da época, no período em que exerciam o poder. Hitler mandou fechar a Bauhaus, a grande escola de design, e chamou a arte da época de "arte degenerada". Ou na época de Stalin que, igualmente aos outros, decretou a arte realista como a oficial. Os artistas deviam exaltar o partido e seus governantes. Com isso a grande maioria teve de fugir para a França ou Estados Unidos, onde produziram suas obras, que hoje estão em diversos museus do mundo.

No período ditatorial brasileiro, sucedeu a mesma coisa. Muitos artistas, de várias linguagens, sofreram terríveis perseguições. Porém aqui não é o caso de detalhar, mas somente dizer que, hoje, muitos estão em evidência no cenário da arte e da cultura no Brasil. Sendo que alguns são artistas eruditos que usaram a temática popular.

Em nosso país foram os literatos os primeiros a trabalhar a identidade cultural brasileira. Eles começaram pela transfiguração da cultura popular do Nordeste. José Américo de Almeida foi o primeiro com "A Bagaceira", de 1928. Depois vieram muitos, entre eles, Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Mario Sette, Ascenso Ferreira, Ariano Suassuna, Gilberto Freire, entre outros. Gilberto Freire, no livro "Nordeste", usa pela primeira vez o termo ECOLOGIA e, com chamada de página, explica o seu significado. Ele denunciava o escoamento na natureza pelas usinas de açúcar, do vinhoto, que é um elemento venenoso. No meu trabalho e no de muitos artistas baianos, a preocupação é a mesma dos literatos. A minha geração, hoje chamada de "Geração MAPA", tem, sobretudo, uma influência muito grande dos escritos de Mario de Andrade.